<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss'><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975</id><updated>2009-02-21T08:22:14.208-01:00</updated><title type='text'>A Duas Mãos</title><subtitle type='html'>Uma sinfonia narrativa a duas vozes</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>13</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>25</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-116293423221698973</id><published>2006-11-07T20:14:00.000-01:00</published><updated>2006-11-07T22:52:38.983-01:00</updated><title type='text'>Capítulo XIII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/olhos%2013.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 364px; CURSOR: hand; HEIGHT: 62px" height="118" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/320/olhos%2013.jpg" width="427" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XIII&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Posso ficar horas a fio sem pestanejar. É uma capacidade que descobri em criança e fui aperfeiçoando nas reverberações dos dias. É um exercício libertador e vagamente iniciático. Ver quanto tempo consigo ser eu, ser-vente, que não vedor. Só há duas maneiras de ser Uno: de olhos bem fechados ou de olhos bem abertos. Pelo menos enquanto estamos vivos.&lt;br /&gt;Uma mulher de cinquenta anos, com olhos de criança e uma madeixa azul, levanta o olhar do livro de poemas de Mário de Sá-Carneiro e fita-me, intrigada. Parece desconfiar. Contrafeito, pestanejo e adopto uma postura neutra de passageiro de comboio. Caramba, voltei a perder-me, outro já habita a minha concha, alegre por me suceder, triste por não se saber. Vêm-me à memória as palavras de Pessoa: “Não sei e sei-o bem”. Pela janela, o mundo, prisioneiro do seu tempo, fica para trás a grande velocidade.&lt;br /&gt;Eis-me na velha cidade, acocorada sobre o Douro, as mãos frementes na máquina digital. Hesito entre deambular a pé e entrar no metro de superfície. Escolho a primeira opção. Caminhar é bom, dá-nos a ilusão de andarmos.&lt;br /&gt;De súbito, um nome de rua agitou-me o carrilhão da memória. Abri muito os olhos, forcejando nos fios do esquecimento, como uma mosca debatendo-se numa teia de aranha. Enfim, acabei por me libertar. Claro! Os envelopes do banco… na secretária do senhor Alegria. Mecânica e celeremente, o meu olhar deslizou pelo fio do passeio. Lá estava ele. O Banco.&lt;br /&gt;Muito azul. Como nos envelopes timbrados que chegam ao Estúdio Alegria. Não entro. Em frente, há uma esplanada. Mesmo em frente. Os vidros não ajudam nada, porque produzem um efeito reflector. Procuro o melhor ângulo. Tenteio uma posição negligente, peço um “cimbalino” e coloco a máquina na melhor posição. Durante uma hora, consigo obter várias imagens do interior. Apago bastantes que não tinham nitidez, embora gostasse delas. Fico órfão. Vou disfarçando a minha permanência na esplanada com uma leitura falsamente absorta da revista de fotografia que trouxe comigo.&lt;br /&gt;Não trabalham muitas pessoas no banco. Parecem-me ser apenas sete. E há uma só mulher. Entre todos, destaca-se um fulaninho petulante de bigode que ciranda sem parar pela dependência, espalhando sorrisos de plástico, em esgares de máscara de ferro. Vejo mais cinco homens, quatro deles, sentados ao balcão com um ar de cadáver adiado. O outro surge de vez em quando dum gabinete ao fundo, ostentando uma impavidez de chefe. Deve ser o chefe. Mas quem será o Antunes. Será ele?&lt;br /&gt;Resolvo, enfim, entrar. Vasculho os folhetos que prometem dinheiro fácil, rápido e ainda garantem prémios fabulosos. O ceú aqui tão perto, porra.&lt;br /&gt;Subitamente, o toque de telemóvel. Aquele, verde e hediondo que atribuí ao número do senhor Alegria. Desligo. Nem na folga me deixa em paz, o velho emplastro! O toque inopinado parece ter despertado a funcionária. Olha, curiosa, para o fio que trago ao pescoço. Tapo o peito com a camisa, instintivamente. Desvia o olhar e pega noutro maço de notas, como se se tratasse de uma batata. De repente, ouço-a chamar:&lt;br /&gt;- Antunes, o teu...&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-116293423221698973?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/116293423221698973/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=116293423221698973' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/116293423221698973'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/116293423221698973'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/11/captulo-xiii.html' title='Capítulo XIII'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-116026824029329457</id><published>2006-10-08T00:24:00.000Z</published><updated>2006-10-08T22:34:04.790Z</updated><title type='text'>Capítulo XII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa_warhol.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 703px; CURSOR: hand; HEIGHT: 173px" height="84" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/caixa_warhol.jpg" width="690" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;Capítulo XII&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Teresa&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ver é rever. Quase sempre. É o passado que pintamos no contorno do presente (como fazes nos livro de colorir, Zé Pedro). À sexta-feira, deixo de ser &lt;em&gt;eu-agora&lt;/em&gt;, sou &lt;em&gt;eu-antes&lt;/em&gt;, ou &lt;em&gt;eu-agora-antes&lt;/em&gt; em sobreposição. Num arame perigoso. E nunca sei quem te fala. Mas sei que és tu inteiro que vejo sempre, António. Tu que me entregaste o Zé Pedro - esta é, finalmente, a semana de ele ser meu filho.&lt;br /&gt;- O Zé anda a fazer perguntas sobre a avó. Há uma fotografia da minha mãe nos caixotes que ainda estão no armário, no vão da escada.&lt;br /&gt;- Explicaste-lhe...&lt;br /&gt;- Sim, disse que a avó Noémia vive nos Açores e que a avó Amélia vive muito mais longe, que não podemos visitá-la, nem ela a nós.&lt;br /&gt;Ver é rever. E lá estavas, Amélia, no teu rosto de vinte e poucos anos, à espera de tudo. À espera que a vida te acontecesse, à espera que a vida te emoldurasse em felicidade. Serás tu, por certo, o António Luís nunca me mostrou esta foto, mas a semelhança é óbvia, os mesmos olhos de quem vê fundo. O mesmo sorriso virado para amanhã.&lt;br /&gt;- Esta é a avó. A avó Amélia.&lt;br /&gt;- Éli!&lt;br /&gt;- A-mé-li-a...&lt;br /&gt;-Li-a! Dá!&lt;br /&gt;- Espera..., não... a moldura, Zé!&lt;br /&gt;E morreste de novo, avó em perene juventude, em estilhaços de impaciência infantil. Mas nascias subitamente aos meus olhos, nas linhas desbotadas que o amor escrevera cuidadosamente, e que o amor guardara para sempre contigo, ocultas no interior da tua moldura frágil.&lt;br /&gt;Já passa das oito, o Antunes já deveria cá estar. Ele que é tão meticuloso, que confere constantemente os relógios, como se a vida assim fosse mais certa, como se assim chegasse a tempo ao seu encontro. O que vale é que o restaurante é simpático, com pouca luz, mas a suficiente para reler-te, Amélia. Ou quem quer que sejas, que falas de tão longe, tão aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Lucerna, 10 de Dezembro de 1970&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu querido Luís:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que nunca mais nos veremos, que viveremos longe um do outro só com a recordação por companhia. Se isso for viver. Mas terei coragem, pois nada foi em vão. Sabia que a felicidade desmedida teria um preço. Pago-o sem me queixar. Confiarei à M. o que temos de mais valor. Ela procurar-te-á. Entenderás tudo. Perdoa-me. Sei que zelarás pelo nosso amor, que crescerá sempre contigo, longe de todos os perigos. Será prudente casares. É-me doloroso dizê-lo, querido Luís, mas perceberás que é melhor para todos nós se fores feliz e fizeres feliz quem te cerca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre tua,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;P.A.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Uma carta de romance de cordel. O amor tem sempre as mesmas cores, seja em que tempo for. Cor de renúncia. Cor de alegria. Cor de sofrimento. Quem és, P.A.? Amélia não era o teu primeiro nome? Será uma alcunha, um código? Que digo ao António Luís? Ou não digo nada? Que faço? Que diabo!, talvez seja uma carta escrita no tempo de namoro, um arrufo, talvez. São tão tristes as cartas de amor-amor. Embaciam tudo por contraste. &lt;em&gt;Sempre tua&lt;/em&gt;. Somos tão pouco uns dos outros. Apressamo-nos a voltar para dentro de nós próprios, para as nossas vidinhas, para as nossas palavras, as únicas que verdadeiramente ouvimos. Sempre tão longe, as pessoas.&lt;br /&gt;- Posso?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-116026824029329457?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/116026824029329457/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=116026824029329457' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/116026824029329457'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/116026824029329457'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/10/captulo-xii.html' title='Capítulo XII'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115818221468977707</id><published>2006-09-13T21:13:00.000Z</published><updated>2006-09-23T10:22:02.640Z</updated><title type='text'>Capítulo XI</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/olhos%2011.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="84" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/320/olhos%2011.jpg" width="533" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Capítulo XI&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às oito da manhã, já estava na estação. Os azulejos azuis que a cobrem de motivos naturalistas são um elo de ligação entre épocas distintas, função tornada mais evidente depois das tremendas obras que esventraram o subsolo e criaram uma vasta cratera de galerias onde se ouvem passos apressados por entre pastosos e sonolentos avisos sonoros de difícil inteligibilidade. &lt;em&gt;Vai dar entrada na linha número um o comboio rápido Alfa Pendular proveniente de Lisboa - Santa Apolónia com destino a Porto-Campanhã. Faz paragem em Espinho e Vila Nova de Gaia. Sai dentro de momeeeeentos…&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;A maioria dos passageiros sabe a cantilena de cor. Alguns chegam a entoar os dizeres, caricaturando a melodia insípida do velho funcionário que os placards de aeroporto não destronaram ainda. É um pregão, uma voz do passado que valsa perfeitamente com a azulejaria da fachada.&lt;br /&gt;No largo em frente à estação, reencontrei o velho “tolinho dos comboios”. Recuo vinte anos e foco a sua silhueta percorrendo as plataformas com passo decidido, dando ordens a toda a gente, apitando com vigor, aqui e ali, interpelando com ira os passageiros, exigindo os bilhetes ou o dinheiro. Por vezes, executava uma imaginária ligação telefónica num qualquer poste e encetava logo ali uma intrincada teia de resoluções de problemas de tráfego, acidentes, avarias, etc. Mas o que mais impressionava quem assistia era a facilidade com que desfiava todo o rosário de estações e apeadeiros, bem como seus horários, tudo na ponta da língua, sem hesitações nem gaguejos. Um mundo perfeito, um mundo alienado, uma constelação de topónimos e números, girando, girando, girando sem nunca sair dos carris.&lt;br /&gt;Desta vez, encontrava-se no exterior. A constelação tinha-se estilhaçado. A outrora imutável configuração ferroviária de décadas tinha-se desmoronado. Procurara refúgio nas ruas da cidade, com o eterno apito na boca e o bloco de notas com o lápis dependurado. Nadava agora por entre as filas de trânsito, o mesmo sorriso trocista, a mesma máscara de zombaria. Ouvi-o indagar um transeunte divertido:&lt;br /&gt;- Sabes quantos anos tenho?&lt;br /&gt;- Não. Quantos?&lt;br /&gt;- Sessenta e cinco. E o meu pai, sabes quantos anos tem?&lt;br /&gt;- Quantos?&lt;br /&gt;- Tem quinze.&lt;br /&gt;- Quinze? Como é que pode ser?&lt;br /&gt;- É a vida!&lt;br /&gt;E seguiu viagem, orgulhoso dos seus segredos existenciais.&lt;br /&gt;Com a máquina digital, tirei-lhe uma foto, em troca de um euro. Tirei-lhe várias, até conseguir uma de olhos fechados. Em todas as imagens de olhos abertos, um rosto interrogando-me &lt;em&gt;Achas-me louco? Louco!&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Mas, de olhos fechados, a verdade em gemidos! &lt;em&gt;Sim, somos loucos…Queres ir andar no comboio-fantasma comigo?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Oito e vinte e quatro. Entrei na carruagem, rumo ao Porto. Um dia de folga na grande cidade. Eu e a minha máquina fotográfica digital. O dia prometia uma luz propícia. Escorriam gargalhadas tristes dos candeeiros.&lt;br /&gt;Nunca tiro fotografias aos passageiros que dormitam nas carruagens. Quando estão mergulhadas no sono, as pessoas parecem abrir os olhos para a realidade e continuam imersas na cegueira.&lt;br /&gt;Na grande cidade, conseguiria muitas imagens novas, pensava, ansioso. Todavia, nesse dia, não chegaria a captar nenhum rosto capaz de me ver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115818221468977707?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115818221468977707/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115818221468977707' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115818221468977707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115818221468977707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/09/captulo-xi.html' title='Capítulo XI'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115745676065257105</id><published>2006-09-05T11:40:00.000Z</published><updated>2006-09-06T11:05:28.820Z</updated><title type='text'>Capítulo X</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/nothingness.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 730px; CURSOR: hand; HEIGHT: 136px" height="137" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/nothingness.jpg" width="690" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo X&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Teresa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Mais perdida, talvez. Menos em mim do que antes. Nunca se guarda nada. Nem o amor, nem os espaços, nem os amigos. Nem as recordações. Quando o Zé Pedro está com o pai, às vezes, não me consigo lembrar exactamente dos olhos, do riso, da voz entaramelada de sono, à noite, e manchada de sonhos, de manhã. Às vezes, entro em pânico, tenho medo de enlouquecer, de esquecer tudo, todos os marcos do caminho até mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E agora, Rosário, que me responderás? Que palavras sensatas terás para me tranquilizar, para me “normalizar”? Que comprimidos me devolverão a mim, que substâncias me ensinarão a ser? Porque é isto que procuro, uma droga qualquer que me ajude a dormir, e outra que me ajude a acordar, a existir mesmo sem querer. Não são as tuas palavras que me trazem cá. Não sabes nada de nada. Tens boas intenções, eu sei. Tudo o que me dizes neste momento e que disfarçadamente ignoro, serão certamente frases edificantes, recortadas com a tua habitual paciência de várias fontes fidedignas. O que, supostamente, será certo ser, dizer ou fazer. Sabes que detesto a palavra. E os seus defensores. Um dia, Rosário, um dia, canto no tom certo, uso as palavras certas, a roupa certa. Um dia tomo a atitude certa, a vida certa. Um dia, Rosário.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- ... em relação ao António Luís?&lt;br /&gt;- Às vezes, achamos que as pessoas são um número, e, afinal, são outro.&lt;br /&gt;- Um número...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Por favor, não tomes nota, que irritante ser observada, dissecada. Não sabes, nunca saberás quem eu sou. Só terás o retrato que as minhas palavras fizerem, o retrato que eu quiser. É sempre assim. O que vês e ouves não é o que sou.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- Um número, sim. O António e eu fomos uma soma errada. Às vezes, desejava apagar tudo e somar-nos de novo.&lt;br /&gt;- E por que houve, na sua opinião, esse erro de cálculo?&lt;br /&gt;- Porque não percebi, porque não voltei atrás, porque ... &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;E porque não deixei de ser eu, porque me trouxe comigo e... É como num poema que li há pouco tempo: “Começo a habituar-me. A viver a teu lado. Não é que se desfaça a bruma; há poços cheios de inverno, calafetados.” Trouxe a névoa comigo. Nunca me consegui desfazer do Inverno. &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Mas sabe que a soma se faz com, pelo menos, dois números...&lt;br /&gt;- Claro. Mas devia ter visto os indícios. Devia ter escolhido melhor todas as palavras. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;em&gt;Já sei, estás a pensar no problema da culpa, vais dizer-me que não tenho de assumir a responsabilidade de tudo, que tenho de me perdoar, de aceitar tranquilamente os erros e as perdas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;-... os erros e as perdas. ... ... caixas esta semana?&lt;br /&gt;- Só duas, ontem. Insignificantes.&lt;br /&gt;- Muito bem. Vemo-nos, então, na próxima semana. Tem aqui a receita.&lt;br /&gt;- Claro. Obrigada. Boa tarde.&lt;br /&gt;- Boa tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E pronto. Um dia hei-de achar que fiz bem. Que me encontrei neste consultório. Cara a cara comigo própria. Que estranho, uma mensagem do Antunes no telemóvel... porque não falou comigo no BCA? Aliás, no BANIF, nem eu nem ele nos habituámos à mudança. Jantar? Pois seja, a ver se volto à superfície das coisas simples, se me deixo esquecida no fundo de mim. Seja, Antunes. Às oito.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115745676065257105?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115745676065257105/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115745676065257105' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115745676065257105'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115745676065257105'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/09/captulo-x.html' title='Capítulo X'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115610938097801360</id><published>2006-08-20T21:27:00.000Z</published><updated>2006-08-20T21:59:17.943Z</updated><title type='text'>Capítulo IX</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/olhos%209.2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 436px; CURSOR: hand; HEIGHT: 72px" height="66" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/320/olhos%209.2.jpg" width="436" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;Capítulo IX&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Valsa dos Clowns&lt;/em&gt; é o título da música preferida de Modesto, o peixe. Pego no CD e, mais uma vez, interpreto o ritual. Bato teatralmente com os nós dos dedos no vidro do aquário. Os barbilhos de Modesto agitam-se imperceptivelmente por detrás dum pequeno esconderijo basáltico. Levanto a tampa do aquário e lanço na água alguns farrapos de comida para peixe. Nada, nem um movimento. O jogo. Coloco o CD no leitor e selecciono a faixa. A voz de Jane Duboc cintila nas palavras de Chico Buarque: &lt;em&gt;Em toda canção / O palhaço é um charlatão&lt;/em&gt; e vai deslizando languidamente pelo forro de madeira do tecto, à procura duma saída para as nuvens. No momento em que se cantam os versos &lt;em&gt;Dizem que seu coração pintado / Toda tarde de domingo chora&lt;/em&gt;, o aristocrático peixe abandona o refúgio e encaminha-se para o vidro, atirando-me um seco “Olá”. Depois, vira-me costas e nada em busca de comida, engolindo-a em sorvos precisos e violentos.&lt;br /&gt;- Novidades? – perguntou-me com fingido desinteresse.&lt;br /&gt;- Algumas – respondi, displicentemente – comprei o equipamento.&lt;br /&gt;- A sério? Conseguiste fazer tudo isso sozinho?&lt;br /&gt;- Deixa-te de sarcasmos. E até o montei.&lt;br /&gt;- Não acredito. Como conseguiste, sem me pedir ajuda?&lt;br /&gt;- Ou paras com isso ou não te conto mais nada. Foi fácil; limitei-me a seguir as instruções que vinham com a webcam. Não é nada difícil, aliás.&lt;br /&gt;- Devo recordar a quem se deve a ideia original?&lt;br /&gt;- Pronto, pronto… Tal como &lt;strong&gt;tu&lt;/strong&gt; tinhas sugerido, fui a uma loja de informática e comprei a câmara. Como o senhor Alegria não estava (como sabes, foi para a Suíça outra vez), entrei no seu gabinete…&lt;br /&gt;- Para a Suíça, dizes tu… pois, pois, ainda estou para saber que raio vai lá fazer esse marmelo!&lt;br /&gt;- Sabes muito bem: vai visitar a irmã, coitadinha.&lt;br /&gt;- Ai, sim? Alguma vez a viste?&lt;br /&gt;- Na verdade, não, mas sei que existe. Há dias, o Tó Luís…&lt;br /&gt;- Qual Tó Luís? O da loja dos animais?&lt;br /&gt;- Sim, esse. Por que falas nisso? Recordações da tua vida anterior?&lt;br /&gt;- Bah, não tenho memória desse período. Desconfio que nunca lá estive.&lt;br /&gt;- Nunca lá estiveste? Vieste de lá, dentro dum saco…&lt;br /&gt;- Pára, pára, vais recomeçar a imaginar melodramas baratos? Deve haver vagas para guionistas em Hollywood!&lt;br /&gt;- Pronto, já entendi. Vamos então ao que interessa.&lt;br /&gt;- Já que tanto insistes, conta lá.&lt;br /&gt;- Está bem, mas estava a dizer-te que o Tó Luís comentou comigo que o pai dele conheceu a irmã do senhor Alegria.&lt;br /&gt;- Pode lá ser!&lt;br /&gt;- Não só a conheceu como os dois se apaixonaram e tiveram um caso amoroso.&lt;br /&gt;- Só mesmo uma tipa doida para alinhar com o pai desse energúmeno!&lt;br /&gt;- Acontece que a mana Alegria não era tolinha. Pelo menos, não nessa época. O pai dela, enfurecido com o romance ‑ não te esqueças que o pai do Tó Luís era um modesto lavrador ‑ , enviou-a para um colégio na Suíça e nunca mais se viram. A valsa é dançada a dois, mas tem um ritmo ternário...&lt;br /&gt;- Então, mas a doida não estava num manicómio?&lt;br /&gt;- Sanatório. Mas ninguém sabe muito bem o que aconteceu a seguir, pode ter enlouquecido, pode ter adoecido…&lt;br /&gt;- Pode ter morrido.&lt;br /&gt;- Isso não, o senhor Alegria vai visitá-la todos os anos!&lt;br /&gt;- Irá mesmo? Nem sabes se vai à Suíça.&lt;br /&gt;- Vai, porque lhe vi o bilhete de avião para Zurique.&lt;br /&gt;- Está bem, e essa criatura tinha nome?&lt;br /&gt;- Chamava-se Paciência. Paciência Alegria.&lt;br /&gt;A música terminava &lt;em&gt;E esse charlatão / Vai cantar uma canção&lt;/em&gt;. Modesto impacientou-se:&lt;br /&gt;- Mas, afinal, o plano, executaste-o ou não?&lt;br /&gt;- Claro que sim. Olha, ouve.&lt;br /&gt;Nas prateleiras, cinquenta mil pares de olhos fecharam-se ainda mais.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115610938097801360?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115610938097801360/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115610938097801360' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115610938097801360'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115610938097801360'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/08/captulo-ix.html' title='Capítulo IX'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115549384393218418</id><published>2006-08-13T18:27:00.000Z</published><updated>2006-08-13T18:30:43.940Z</updated><title type='text'>Capítulo VIII</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa16%20c.1.jpg"&gt;&lt;img style="CURSOR: hand" height="114" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/caixa16%20c.1.jpg" width="692" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo VIII&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Teresa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Olhos longe, regresso a casa. Ainda que sinta que a minha verdadeira casa fica numa ilha. Como todas as casas, aliás. Como todos os locais onde nos moramos. Continuo a gostar dos comboios, embora me pareçam agora bem menos poéticos do que antes (tinhas razão, António). Nada é o que se imagina. Devia sabê-lo. Devíamos sabê-lo. Às vezes, sinto que me roubaram a uma vida paralela que, entretanto, ficou suspensa, que, entretanto, espera por mim, anseia que vire à esquerda ou à direita, que esboce o gesto perfeito, que encontre a combinação certa, que diga a fórmula mágica, sem nós nas sílabas. E eu sempre gestos de pedra, sempre uma nota falsa no encanto que deveria levar-me até mim. Houve um tempo em que achei que o teu nome abriria todas as portas, me daria todos os tesouros. Mas até as palavras mágicas se gastam, suponho.  Como as outras. Como as que me dizias. Como as que sei que nunca irei ouvir - e é dessas que tenho mais saudades. Talvez o amor seja feito de palavras também. E destruído por elas. Aliás, foste tu que me mostraste - pacientemente -  que não nos amávamos (e que me convenceras antes do contrário também). De forma que ocultei o que sentia sob palavras de circunstância, de compreensão, de  comedimento, de indiferença... Quando dei por mim, só havia a terra alisada pelos “claro”, “com certeza”, “está bem”, “não tem importância” que atirei às pazadas sobre nós, parando para sorrir, de quando em quando. Agora, mesmo que me apeteça resgatar-nos, já não sei onde estamos, em que enseada escondi tudo o que sentia. Não sei de nós, nem de mim.&lt;br /&gt;O telemóvel... não, enganei-me, deve ser o desse homem à minha frente, que lê, olhos a flutuar nas páginas, uma revista de ... fotografia, parece-me, os dedos ocultam o título. Mãos de boa pessoa. A Rosário havia de se rir de novo. Eu sei, Rosário, a personalidade não está nas mãos. Estará onde, não me dizes? Um bocadinho desajeitado, ia deixando cair o telemóvel.&lt;br /&gt;- Desculpe...&lt;br /&gt;- Deixe estar.&lt;br /&gt;Nervoso, ou talvez “fora de si”, como quem estranha e se atrapalha ao voltar à tona da realidade. É fácil perder o ar quando se vem à superfície de quem se é. Ou de quem se pretende ser. Olhos longe, também. Como te chamarás? Haverá uma inicial nesse fio de ouro que alguém te ofereceu? Talvez um L... um H? Claro, ajeita a camisa, não deixes nunca que vejam quem és, Luís, Leonardo, Helder, Henrique...&lt;br /&gt;Olhos longe, regresso a casa. Ou melhor, olhos em mim, sigo-me devagar. Os gestos soletrados de cor, os passos contados, os últimos tempos da valsa triste de todos os dias. Um, dois, três, rodar a chave, empurrar a porta, um, dois, três, rodar o corpo, fechar a porta, um, dois, três, entrar, pousar as chaves, um, dois, três, pousar a mala, pousar-me no sofá, um, dois, três, levantar-me, abrir a mala, abrir o armário, guardar as caixas, um, dois, três, entrar no quarto, tirar a roupa, um, dois, três, peça a peça, passo a passo, um, dois, três, encher a banheira, deitar-me, um, dois, três, ficar aqui até ao fim da valsa. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115549384393218418?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115549384393218418/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115549384393218418' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115549384393218418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115549384393218418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/08/captulo-viii.html' title='Capítulo VIII'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115472065932961511</id><published>2006-08-04T19:39:00.000Z</published><updated>2006-08-09T23:58:21.756Z</updated><title type='text'>Capítulo VII</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/olhos%207.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 575px; CURSOR: hand; HEIGHT: 78px" height="104" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/320/olhos%207.jpg" width="491" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;CAPÍTULO VII&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pessoa importante, nunca foi algo que quisesse ser. No entanto, ansiava por me libertar da servidão do meu trabalho no &lt;em&gt;Estúdio&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;No dia em que, pela primeira vez, me foi dada a possibilidade de tirar fotografias tipo passe e as estraguei – pelo menos, aos olhos perros do senhor Tristão –, fui alvo de um raspanete do patrão tão veemente que ponderei seriamente procurar outro emprego. Recordo ainda hoje vivamente a violência despropositada com que ele arremessou os negativos para o cesto de lixo.&lt;br /&gt;Na hora do almoço, deixei-me ficar na loja. O brilho do acetato cintilava, sorridente, no caixote do lixo preto, como uma estrela no firmamento tentando cativar o seu fadado.&lt;br /&gt;Peguei nos negativos e resolvi ampliá-los para papel, ou seja, fazer aquilo a que a maior parte das pessoas chama “revelar”.&lt;br /&gt;Uma a uma, as fotografias foram assomando. As quatro. Eram perfeitas. A distribuição da luz, os contrastes suavizados, as sombras apaziguadas, conferiam àquelas imagens de rosto feminino a dignidade de estátuas helénicas. E até os olhos fechados lhes emprestavam a serenidade do mármore.&lt;br /&gt;Amorosamente, coloquei-as dentro de um envelope, com o cuidado de quem embala porcelana fina. Ao fim do dia, levei-as para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não tinha apetite. Estiquei-me na cama, com os olhos pregados no tecto. Vivo num quarto alugado numa casa velha, daquelas que ainda têm forro de madeira. Perco horas, de barriga para cima, vagueando pelos desenhos dos nós da madeira, encontrando sempre novos seres, consoante a luminosidade e o ângulo de visão. Algumas figuras são-me já familiares e atrevem-se mesmo a comentar e criticar alguns passos da minha vida. (Pequenas concessões de quem não tem muita companhia.)&lt;br /&gt;Estava desgastado, saturado do Estúdio Alegria mai-las suas tristezas. Não suportava a avareza e a rispidez do patrão. Para além disso, o trabalho era rotineiro, entediante, monocórdico, estupidificante…&lt;br /&gt;Não tinha vindo ao mundo para semelhante sina. Não para cumprir aquela existência de cinza pardacenta. Deveria haver algo mais. &lt;em&gt;Cada pessoa nasce com um desígnio, uma missão, sei lá, qualquer coisa que dê sentido a uma vida. E cada um tem que descobrir para que está talhado.&lt;/em&gt; Com a certeza de que esse desígnio é sempre tudo menos o óbvio. Não é ser médico, como queria a mamã; ou padre, como desejava a titi; ou ainda advogado, como insistia o papá.&lt;br /&gt;A maior parte das pessoas nunca se encontra; alguns nascem para salvar; outros, para criar; outros ainda, para destruir. A maioria morre sem ter vivido. Sem ter cumprido o seu desígnio. Decerto que o meu não era ser escravo do senhor Alegria até ao resto dos meus dias. Ou dos seus. Teria de me despedir, arranjar outro emprego. Ou então arranjar um suplementar.&lt;br /&gt;Coloquei as quatro fotografias apoiadas na janela do quarto e deixei-as olharem para mim. De olhos bem fechados, VIAM-ME por inteiro. &lt;em&gt;Compreendiam-me&lt;/em&gt;. Totalmente. Talvez que, ao fecharem os dois globos oculares, um terceiro olho se ligasse – o “olho místico.” Uma aura de ampla comunhão envolveu todo o quarto. Ouvi-me balbuciar de alegria, no momento em que também fechei os olhos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115472065932961511?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115472065932961511/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115472065932961511' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115472065932961511'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115472065932961511'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/08/captulo-vii.html' title='Capítulo VII'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115444631197381491</id><published>2006-08-01T15:24:00.000Z</published><updated>2006-08-01T21:03:28.833Z</updated><title type='text'>Capítulo VI</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/match%20box%20c.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 684px; CURSOR: hand; HEIGHT: 78px" height="78" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/match%20box%20c.jpg" width="531" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa16%20c.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo VI&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Teresa&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- ... nisso, tem razão, a sua conta...&lt;br /&gt;- ... e depois o depósito será...&lt;br /&gt;- ... em dois dias a transferência...&lt;br /&gt;- ... a certeza de que o juro...&lt;br /&gt;É sempre insuportável o zumbido do Banco todas as manhãs. As frases às tiras como os papéis que se eliminam. Deste lado do vidro, Teresa Botelho, ou melhor, Teresa Almeida. No crachá, ainda sou Almeida. Soava bem melhor, tal como a vida também. Agora, soam mal. Como a pronúncia alisada do Antunes, a fingir que é alfacinha. Com palavras cheias de sílabas que martela vagarosamente – não se percebe por que continua a ouvir frequentemente tantos “Como?” do outro lado do vidro. Há pouco, desfazia-se em vénias verbais (e físicas!) ao telefone. Devia ser cliente graúdo. O Antunes gosta de “pessoas importantes”. Quando pedi que me transferissem para cá, nem esperava encontrar conterrâneos no BCA. Esperava ficar mais perto do António Luís, que se começava a queixar da comida nos aviões, do tempero dos restaurantes e cafés da ilha, dos jornais, livros, CDs e amigos que não encontrava em S. Miguel, da humidade – e até do sabor das queijadas de Vila Franca. Resolvi inverter os papéis, antes que fosse impossível alguém regressar a alguém. E porque sempre reclamara que queria uma vida só minha. E vim ser Teresa Almeida.&lt;br /&gt;- Tem o seu BI?&lt;br /&gt;- Só um minuto... Está aqui.&lt;br /&gt;- Sabe que já caducou... Mas tem sorte, que o meu também já e eu sei como é que são essas coisas, mas veja lá se resolve isso, senhora... Margarida Alegria Brum.&lt;br /&gt;- Muito obrigada, querida, era para tratar disso antes de vir para cá, mas o Paulinho mandou dizer que ia queimar as fitas esta semana...&lt;br /&gt;- Não se preocupe. Pode assinar aqui, se fizer o favor.&lt;br /&gt;- Gosto &lt;em&gt;poderes&lt;/em&gt; daquele pequeno.&lt;br /&gt;- É tudo. Tenha um bom dia e que tudo lhe corra bem por cá.&lt;br /&gt;- Adeus, querida. Até outra vez. Olha-me ele! Aníbal! Aníbal! Não te tinha visto. Então até logo, não te esqueças!&lt;br /&gt;- Sô D. Margarida! Claro que não, claro que não! Estou inquieto que chegue a hora! Até logo!&lt;br /&gt;Olha, olha, parece que o Aníbal a conhece. Fica mesmo cómico o Antunes, aos acenos e risinhos. No fundo, nem é má pessoa. Se bem que nunca se apreende o fundo de ninguém. Mesmo que se partilhe a vida (que, como descobri, nunca é só nossa). Não vale a pena atravessarmos o mar. Ou o amor. Nunca se chega à ilha onde o outro está. Talvez o que valha a pena seja só a viagem. Ou o sabor que se guarda, depois. Até pode ser o das queijadas da Vila. Ou o do riso claro do José Pedro, tão cedo habituado a ter ora um pai, ora uma mãe. &lt;em&gt;Ela&lt;/em&gt; havia de gostar desta &lt;em&gt;visão madura, sem idealismos&lt;/em&gt; (como diria) das coisas. Desta &lt;em&gt;aceitação tranquila das perdas.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;- ... nisso, tem razão, a sua transferência...&lt;br /&gt;- ... e depois o saldo será...&lt;br /&gt;- ... é claro que o depósito...&lt;br /&gt;E não há forma de o zumbido amortecer. Devíamos dispor de um botão silenciador, que fizesse o barulho pousar devagar no solo espelhado do Banco. A “Sô D. Margarida” deixou aqui uma caixa de fósforos. Depois, dou-a ao Antunes, que me parece lidar agora com uma “pessoa importante”. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115444631197381491?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115444631197381491/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115444631197381491' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115444631197381491'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115444631197381491'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/08/captulo-vi.html' title='Capítulo VI'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115392478809645923</id><published>2006-07-26T14:38:00.000Z</published><updated>2006-07-26T21:36:45.146Z</updated><title type='text'>Capítulo V</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/olhos%205.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 561px; CURSOR: hand; HEIGHT: 65px" height="119" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/320/olhos%205.jpg" width="457" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Capítulo V&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antunes. Aníbal Antunes. Este homem veio agitar o lodaçal em que a minha existência começava a transformar-se.&lt;br /&gt;Há duas semanas, estando o senhor Tristão ausente do seu estabelecimento, o telefone tocou e eu atendi. Do outro lado da linha, uma voz de sotaque micaelense transpirava de cumplicidade:&lt;br /&gt;- Senhor Alegria, fala Aníbal Antunes, do Banco Comercial dos Açores. Já tenho notícias da Suíça!&lt;br /&gt;Inexplicavelmente, uma voz dentro de mim ordenou-me que me fizesse passar pelo meu patrão. De imediato, pressionei as narinas ligeiramente e respondi:&lt;br /&gt;- A sério? Ora diga lá, amigo. Peço desculpa por me estar a fazer ouvir mal, mas é que estou cá com uma constipação…&lt;br /&gt;- Isso é que é mau… Mas tenho boas novas. O banco suíço já telefonou a confirmar a transferência.&lt;br /&gt;- Óptimo, óptimo.&lt;br /&gt;- Bom agora já sabe, para movimentar o dinheiro só com os códigos que eles lhe deram. Veja lá onde guarda isso!&lt;br /&gt;- Esteja descansado, isso está guardado em lugar seguro.&lt;br /&gt;- Muito bem, as melhoras, então. E já sabe, quando precisar de mais alguma coisa, apite. A propósito, estive hoje com a sua prima Margarida. Continua com a boa disposição de sempre. Aquela mulher é um furacão.&lt;br /&gt;- Tem razão, o caro Aníbal. Boa tarde, então, amigo.&lt;br /&gt;- Até à próxima, senhor Alegria. Passe um bom resto de dia. Com licença.&lt;br /&gt;Respirei fundo durante alguns momentos. O sacana do patrão tinha movimentos bancários secretos. E por que diabo nos Açores? Algo me dizia que poderia tirar partido daquela situação. Sabia até onde o senhor Alegria possivelmente guardaria os códigos: no cofre que tinha debaixo da reprodução do quadro de Cezanne, Os Jogadores de Cartas. Já por algumas vezes o tinha entrevisto a abri-lo e as marcas nos quatro cachimbos da parede representados na tela mostravam claramente onde ficava o mecanismo de abertura. No entanto, o cofre era de combinação, pois o ouvira rodar o mecanismo. Não podia perguntar-lhe simplesmente qual era o código. Teria de haver uma maneira.&lt;br /&gt;Afinal, havia mais um coleccionador no Estúdio Alegria. Só que este coleccionava dinheiro! Todos os anos de exigências e maus pagos me fizeram tremer de indignação, mas deram-me motivação para me ressarcir.&lt;br /&gt;Custou-me a passar esse dia de trabalho. Quando voltou, o senhor Tristão perguntou se tinham telefonado e eu respondi que não, tentando parecer natural. Ainda gaguejei:&lt;br /&gt;- Está à espera de algum telefonema importante? Se telefonarem, que digo?&lt;br /&gt;O meu interlocutor pareceu hesitar na resposta e acabou por dizer, displicentemente:&lt;br /&gt;- Não, não. Perguntei só por perguntar.&lt;br /&gt;Intimamente, senti um gozo especial. A partir daquele momento, o senhor Alegria não estava já na posição superior do dissimulado que engana toda a gente. Desde então, continuei a dizer que sim, espreitando-o de soslaio. Consegui confirmar que o cofre se encontrava atrás do quadro e ainda que os cachimbos da parede assinalavam a zona onde o senhor Alegria pressionava com aqueles dedos esquálidos e gananciosos.&lt;br /&gt;Um dia, estando em amena cavaqueira com o meu &lt;em&gt;Botia Modesta&lt;/em&gt;, ele sugeriu-me a solução ideal. Modesto, peixe genial! É claro!&lt;br /&gt;Como é que eu não havia pensado nisso?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115392478809645923?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115392478809645923/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115392478809645923' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115392478809645923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115392478809645923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/07/captulo-v.html' title='Capítulo V'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115366557069163875</id><published>2006-07-23T14:32:00.000Z</published><updated>2006-07-25T22:43:56.403Z</updated><title type='text'>Capítulo IV</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa2c.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 689px; CURSOR: hand; HEIGHT: 112px" height="86" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/caixa2c.jpg" width="676" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/caixa%20copy.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;strong&gt;Capítulo IV&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Teresa&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fechados! Quase todos os cafés ainda estão fechados...Quem me manda acordar tão cedo com o receio estúpido de me atrasar? Hei-de querer ser sempre a primeira a pôr o braço no ar para responder na vida. Ainda que, por dentro, já tenha há muito deixado cair os braços. Tão diferentes estas manhãs das outras... – às vezes, acordo com latidos ao longe, a respiração húmida e lisa do mar, o hino dos galos, as vozes fechadas como caixas, breves e graves. &lt;em&gt;Ora Viva Cafe&lt;/em&gt;. Lindo.&lt;br /&gt;- Era uma meia de leite, por favor.&lt;br /&gt;- Era? Já não é?&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- O.K., menina, já vou tirar. O troco...&lt;br /&gt;- Obrigada.&lt;br /&gt;Será que os empregados de café não percebem que a bajulice fica sempre à mostra, mesmo quando usam o avental esticado de simpatia? Olha, aqui ao lado, não repararam. Lá está a mesma chalaça e o risinho a pronto do cliente. Onde andará o jornal? Ah, ali. Alguém deixou uma caixinha-cinzeiro na mesa. Tanto melhor, não preciso de me dirigir de novo ao empregado &lt;em&gt;jocoso&lt;/em&gt;. Ora deixa ver: &lt;strong&gt;Governo não quer autarcas com cargos em empresas municipais&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;O Governo pretende impedir que autarcas acumulem&lt;/em&gt; (Não acredito! Duplicação de cargos? No nosso país impoluto?) &lt;em&gt;car....&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- Aqui está, menina.&lt;br /&gt;- Obrigada.&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Hezbollah disparou vários "rockets" e fez pelo menos dez feridos em Israel&lt;/strong&gt; &lt;em&gt;O movimento islâmico Hezbollah disparou esta manhã pelo menos... &lt;/em&gt;&lt;strong&gt;Cresce consumo de medicamentos para sida, cancro e transplantes &lt;/strong&gt;&lt;em&gt;Os medicamentos .... são aqueles cujo consumo hospitalar mais cresceu nos primeiros cinco meses do ano. Um relatório do Ministério da Saúde revela que a maioria das unidades está a conseguir controlar os gastos. Mas há outras onde a despesa já disparou 15 por cento.&lt;/em&gt; (Como é possível que o Governo permita uma despesa destas? E com medicamentos?) &lt;em&gt;Cinema: Toda a Verdade Sobre o Amor... O Sabor da Paixão... Piratas das Caraíbas... O Fio da Vida . Horóscopo... Sagitário:Dedique algum tempo a fazer o ponto de situação da sua vida. Será que está a fazer os possíveis para a viver plenamente?&lt;/em&gt; (O Horóscopo devia vir na secção de Humor) &lt;em&gt;Moradia T-5 Carcavelos... 5 nomeações para óscar Walk the Line em DVD... Very Cool Rose... Cruzeiro de luxo no Guadiana relaxe com as àguas calmas&lt;/em&gt; (àguas?)... &lt;em&gt;Estúdio Alegria de Tristão Alegria - A Beleza e a Qualidade da Fotografia &lt;/em&gt;(Tristão Alegria... Ah! Ah!). Bem, é melhor ir andando, aquele parece mesmo o Antunes, &lt;em&gt;é&lt;/em&gt; o Antunes, o galã do Banco, a minha cruz do Banco, que aí vem marcar território com o seu after-shave reluzente. Nos últimos tempos, não me fala, provavelmente qualquer coisa que lhe disse (ou que não lhe disse) que lhe soube mal, as possibilidades são infinitas. Não há pachorra para insinuações, ciumezinhos e amuos. Alguém devia dizer-lhe que os amuos não vão nada bem com o portuguesíssimo bigodinho, nem com o físico hollywoodesco-decadente, moldado a litros de suor no ginásio do bairro. Os amuos são um feudo feminino, como os saltos altos, as lágrimas, os orgasmos simulados, o...&lt;br /&gt;- Olha a Teresa!... Madrugaste...&lt;br /&gt;Tarde de mais...&lt;br /&gt;- Bom dia, Antunes.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115366557069163875?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115366557069163875/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115366557069163875' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115366557069163875'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115366557069163875'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/07/captulo-iv.html' title='Capítulo IV'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115334855517686573</id><published>2006-07-19T22:32:00.000Z</published><updated>2006-07-23T22:59:54.013Z</updated><title type='text'>Capítulo III</title><content type='html'>&lt;em&gt;&lt;strong&gt;Capítulo III&lt;/strong&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/eyes%20shut2.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" height="86" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/400/eyes%20shut2.jpg" width="650" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuro. Está muito escuro. &lt;em&gt;É nas trevas que tudo se urde. Na escuridão da noite, germina a semente, reza o aflito e espera o Iniciado.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;É na câmara escura que o nitrato de potássio queimado se agarra teimosamente ao acetato, contra a corrente da lavagem, configurando os milhares de pontos que darão definição à imagem nítida e contrastada que se poderá fixar na retina em banho de claridade. &lt;em&gt;Tudo tem uma gestação e a flor brota da terra assim como o sol rasga a noite ao alvorecer.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Não consigo dormir. Embalo as insónias em recordações do tempo em que fiz a descoberta. Faz hoje dez anos que comecei a trabalhar no &lt;em&gt;Estúdio Alegria&lt;/em&gt;, propriedade de Tristão Alegria, que ainda é hoje o meu patrão. Trata-se de um estabelecimento com tradição na cidade em que vivo, uma vez que foi fundado pelo avô do senhor Tristão, Cândido Alegria, que aproveitou a fortuna da esposa, Letícia, para montar um negócio de um luxo considerado escandaloso na altura. Durante décadas, o &lt;em&gt;Estúdio Alegria&lt;/em&gt; constituiu um ex-libris da cidade e o Senhor Cândido mantinha a sua invejável posição de rico e de artista. Sim, que a sua paixão eram os retoques e os cenários que acompanhavam as fotografias da época. Depois, o seu filho único, Plácido, desbaratou toda a riqueza familiar, como sempre se queixava o Senhor Tristão, deixando-lhe, a ele, a dura tarefa de continuar a tradição e de cuidar da sua querida irmã, Hortênsia, doente mental que vivia internada na Suíça e era um “sorvedouro de cabedais”, ainda nas palavras do amantíssimo irmão. Solteiro inveterado, vivendo para o trabalho, cultivando a sua mesquinhez com afinco, não se lhe conhecem outros afectos. Apenas por uma vez recebeu a visita na loja de uma prima açoriana, de nome Margarida, uma mulher bela e espampanante que encheu o Estúdio Alegria com o seu espírito durante as três horas que lá demorou. Que contraste com o primo! Duas vezes por ano, o patrão lá abalava para as altas paragens suíças, a visitar a mana. Demorava uma ou duas semanas e regressava feliz, com a alma lavada, talvez por sentir o prazer de um dever cumprido. &lt;em&gt;Ai que prazer ter um livro para ler&lt;/em&gt;, teclo, distraído. &lt;em&gt;E não o fazer. E não o escrever.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Foi logo com esta resenha histórica que o senhor Tristão me recebeu “à experiência”, por recomendação de um tio meu, que nunca cheguei a conhecer. Sempre lamentando a pouca fortuna, os desvarios do pai e as avultadas despesas, lá me foi dando um salário de miséria e trabalhinho até fartar. Horas extraordinárias era vocabulário desconhecido no dicionário das remunerações do senhor Tristão. Cedo me fui apercebendo de que era a sovinice do patrão que me impedia de ter uma vida mais desafogada. Porém, fui ficando, talvez para grande espanto do próprio. A minha motivação: a minha colecção.&lt;br /&gt;Tudo começou na segunda semana de trabalho. Após ter passado os primeiros dias executando enfadonhas tarefas de rotina, o senhor Tristão achou por bem confiar-me trabalhos mais arrojados: nada mais, nada menos que tirar fotografias “tipo passe” aos clientes da loja. Logo na primeira tentativa, fui brindado com a admoestação seca:&lt;br /&gt;- Oh, senhor Heitor, senhor Heitor, o que foi fazer... Tem de ter mais cuidado; assim só me vai trazer prejuízo. Veja o que faz!&lt;br /&gt;Ao lado dos negativos cortados, as fotos da cliente. Tinham todas ficado de olhos fechados. Bem fechados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115334855517686573?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115334855517686573/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115334855517686573' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115334855517686573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115334855517686573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/07/captulo-iii.html' title='Capítulo III'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115298259852024468</id><published>2006-07-15T16:49:00.000Z</published><updated>2006-07-25T22:35:46.860Z</updated><title type='text'>Capítulo II</title><content type='html'>&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa5c.0.jpg"&gt;&lt;img style="WIDTH: 677px; CURSOR: hand; HEIGHT: 65px" height="57" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/400/caixa5c.0.jpg" width="500" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa5c.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/3179/3342/1600/caixa%20copy.1.jpg"&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;em&gt;Capítulo II&lt;/em&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Teresa&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Fechados. Tenho de verificar se todos os armários estão bem fechados. Apesar de todo o cuidado, alguém poderia... Claro que ninguém poderia. Ninguém imagina, sequer, o que guardo, nem como o que guardo é precioso. Bem sei que é quase um prazer perverso guardar – e guardar-me – dos outros. É o que &lt;em&gt;ela&lt;/em&gt; diz. Mas é absolutamente necessário. E até é possível que seja uma forma de dominar e não sei quê. Tolices. Ela não sabe. Só um último olhar: tenho de vê-las todas mais uma vez antes de ir dormir. Só mais uma vez. São tantas... E há tanto de mim em cada uma... Se as perdesse, perdia-me. Quando as olho, posso olhar-me também... Quando as olho, recupero tudo o que já foi. Recupero-me, talvez. Tão estranho, isto. Tão estranha, eu...&lt;br /&gt;- Então, Tomás? Não vens dormir? Ou preferes ficar aí a olhar a noite, a ouvir segredos que só os gatos ouvem? Assim, sim. Vamos, deixa-me fechar as cortinas.&lt;br /&gt;E desligar o PC, já me esquecia. &lt;em&gt;Não existem mensagens novas&lt;/em&gt;. Claro. E agora o pior- “desligar-me”. Vou adormecer depressa hoje. Eu sei que sim. É melhor não pensar nisso. É melhor não pensar. Ficar de olhos bem fechados. Bem fechados. Que a realidade não se atreva agora a bater-me à porta do sono, como sempre. Que a vida fique lá fora. Que se esvaia com o grito daquele pássaro vadio - parecia mesmo um cagarro... Será que à noite o passado se esgueira pelos ecos escuros?... Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro. Se te pudesses transformar em canto, como os pássaros, ou cantar por dentro para adormecer... &lt;em&gt;Clarice lay down your mind&lt;/em&gt;...Como é o resto? &lt;em&gt;It’s there just hard to find. &lt;/em&gt;Há quanto tempo não ouvia isto na memória. &lt;em&gt;Follow me as we wind our way, away&lt;/em&gt;. Daqui a uma horas, a lucidez volta a tocar-me no ombro e terei de virar-me, encará-la, sorrir-lhe. Por que será que todos adormecem, menos eu? Até o Tomás já se enroscou nos seus sonhos felinos de grandes caçadas. Em que sonhos me posso enroscar? &lt;em&gt;Behind an open door there lies a million more&lt;/em&gt;… Tão estranha, eu. Sei que é verdade. &lt;em&gt;Ela&lt;/em&gt; não sabe. O que me diz são meras frases estudadas, a cordialidade que os outros tão bem sabem de cor. Os outros. Os que estão do outro lado do vidro, a viver. Os outros sabem mesmo viver. Deve haver uma forma de se aprender. Deve haver... Se ao menos conseguisse aquela peça, sei que tudo seria diferente. É que não seria só mais uma peça. O pior é que ninguém percebe como é importante. Não se pode viver e perceber, suponho. Tenho de ser eu a fazê-lo... Mas não posso pensar. Não posso. Tenho de dormir.Tenho de dormir agora. Se ao menos se pudesse também apagar a luz por dentro… Se ao menos a noite não fosse uma enorme caixa vazia. Se não ouvisse sempre a ameaça rouca do&lt;br /&gt;mar que não se ouve aqui. &lt;em&gt;Time is coming soon I’ll find you time is coming soon I’ll find you time is coming soon, time is coming soon…&lt;/em&gt; Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115298259852024468?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115298259852024468/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115298259852024468' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115298259852024468'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115298259852024468'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/07/captulo-ii.html' title='Capítulo II'/><author><name>Graça</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18148774858178663979</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='11030512082448494300'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-31041975.post-115274372878543715</id><published>2006-07-12T22:33:00.000Z</published><updated>2006-07-23T23:01:40.753Z</updated><title type='text'>I</title><content type='html'>&lt;strong&gt;Capítulo I &lt;a href="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/1600/eyes_shut.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; WIDTH: 594px; CURSOR: hand; HEIGHT: 53px" height="53" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/6344/573/400/eyes_shut.0.jpg" width="525" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Heitor&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De olhos bem fechados. Meticulosamente, miro, remiro os últimos exemplares da minha colecção. São fenomenais e, melhor que isso, são fruto de um engenhoso esforço de obtenção. Observo-os mais uma vez, embevecido com o meu critério. Reparo em cada detalhe, detenho-me em cada “nuance”. Com os olhos bem fechados.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Hoje, alcancei o número cinquenta mil. Quinhentas centenas de exemplares, organizados, datados e catalogados, espalhados pelo apartamento, ocupando uma boa parte do espaço disponível, como se fossem membros de uma família numerosa.&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;O facto de não os poder expor sempre me galvanizou, ao invés de me retrair. Reconheço que a acumulação é já impressionante, mas chega a ser assustador pensar no que ainda está por fazer, no desafio que coloquei a mim próprio. Como alcançar o milhão no curto espaço de uma vida? Terei de me transcender, de criar alguma estratégia espectacular que me permita acelerar ainda mais o ritmo com que vou coleccionando. E acima de tudo, manter o sigilo.&lt;br /&gt;Não sei onde tudo isto me vai levar. Sei que não penso noutra coisa. Encaro-o como uma missão. Às vezes, gostava de partilhar com alguém este meu hobbie. E os seus segredos. E as portas que abre. E as que fecha.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Conheço cada um dos exemplares da minha colecção. Cuido deles zelosamente&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;Eles sabem que podem contar comigo. Podem dormir o seu sono sossegado e eterno. Eu estou a velar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amanhã cedo, vou iniciar a execução do meu plano secundário: garantir a minha autonomia financeira. É indispensável que o faça. Como me desola manter este emprego estúpido! Como me rouba o tempo precioso para a consecução dos meus objectivos! Se não teclasse estas mal traçadas linhas – curiosa expressão! – no meu computador pessoal, talvez enlouquecesse. Ou talvez isso já não seja possível. Talvez tenha alcançado um estádio em que a loucura já nada pode contra mim.&lt;br /&gt;Nem contra ti, Modesto, meu pobre peixe que nunca te mostras senão à noite, de relance. Neste momento, que sonhos húmidos ruminas tu, debaixo desse basalto açoriano que me ornamenta o aquário? Terás tu opinião sobre o que faço? Há muito me convenci da tua aquiescência. De outro modo, ter-te-ia já desalojado, como fiz aos teus companheiros. Como me pareciam abelhudos, espreitando pelo vidro! Estupefactos com o que viam. Os olhos redondos de censura!&lt;br /&gt;Modesto, meu amigo, como gostava de te levar comigo amanhã, para veres &lt;em&gt;in loco&lt;/em&gt; a aplicação dos teus planos superiormente gizados… Prometo que não vou falhar. Seguirei à risca as tuas recomendações. A minha mão não vacilará. Terás de esperar até que regresse. Contar-te-ei tudo ao pormenor. Terás de te habituar à ideia de me não veres durante bastante tempo. Não te preocupes, arranjarei alguém para te alimentar todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não pretendo fazer mais nada na vida senão cumprir a minha missão e prosseguir a minha colecção. A ninguém revelarei os meus desígnios.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Desligo o computador. Regresso às minhas últimas peças, capturadas hoje. São perfeitas. Fito-as fixamente. De olhos bem fechados. Fechados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/31041975-115274372878543715?l=a-duas-maos.blogspot.com'/&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/feeds/115274372878543715/comments/default' title='Enviar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='https://www.blogger.com/comment.g?blogID=31041975&amp;postID=115274372878543715' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115274372878543715'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/31041975/posts/default/115274372878543715'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://a-duas-maos.blogspot.com/2006/07/i.html' title='I'/><author><name>Mito</name><uri>http://www.blogger.com/profile/18197651287412623469</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:extendedProperty xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' name='OpenSocialUserId' value='01067825321718529807'/></author><thr:total xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'>2</thr:total></entry></feed>