
Capítulo V
Heitor
Antunes. Aníbal Antunes. Este homem veio agitar o lodaçal em que a minha existência começava a transformar-se.
Há duas semanas, estando o senhor Tristão ausente do seu estabelecimento, o telefone tocou e eu atendi. Do outro lado da linha, uma voz de sotaque micaelense transpirava de cumplicidade:
- Senhor Alegria, fala Aníbal Antunes, do Banco Comercial dos Açores. Já tenho notícias da Suíça!
Inexplicavelmente, uma voz dentro de mim ordenou-me que me fizesse passar pelo meu patrão. De imediato, pressionei as narinas ligeiramente e respondi:
- A sério? Ora diga lá, amigo. Peço desculpa por me estar a fazer ouvir mal, mas é que estou cá com uma constipação…
- Isso é que é mau… Mas tenho boas novas. O banco suíço já telefonou a confirmar a transferência.
- Óptimo, óptimo.
- Bom agora já sabe, para movimentar o dinheiro só com os códigos que eles lhe deram. Veja lá onde guarda isso!
- Esteja descansado, isso está guardado em lugar seguro.
- Muito bem, as melhoras, então. E já sabe, quando precisar de mais alguma coisa, apite. A propósito, estive hoje com a sua prima Margarida. Continua com a boa disposição de sempre. Aquela mulher é um furacão.
- Tem razão, o caro Aníbal. Boa tarde, então, amigo.
- Até à próxima, senhor Alegria. Passe um bom resto de dia. Com licença.
Respirei fundo durante alguns momentos. O sacana do patrão tinha movimentos bancários secretos. E por que diabo nos Açores? Algo me dizia que poderia tirar partido daquela situação. Sabia até onde o senhor Alegria possivelmente guardaria os códigos: no cofre que tinha debaixo da reprodução do quadro de Cezanne, Os Jogadores de Cartas. Já por algumas vezes o tinha entrevisto a abri-lo e as marcas nos quatro cachimbos da parede representados na tela mostravam claramente onde ficava o mecanismo de abertura. No entanto, o cofre era de combinação, pois o ouvira rodar o mecanismo. Não podia perguntar-lhe simplesmente qual era o código. Teria de haver uma maneira.
Afinal, havia mais um coleccionador no Estúdio Alegria. Só que este coleccionava dinheiro! Todos os anos de exigências e maus pagos me fizeram tremer de indignação, mas deram-me motivação para me ressarcir.
Custou-me a passar esse dia de trabalho. Quando voltou, o senhor Tristão perguntou se tinham telefonado e eu respondi que não, tentando parecer natural. Ainda gaguejei:
- Está à espera de algum telefonema importante? Se telefonarem, que digo?
O meu interlocutor pareceu hesitar na resposta e acabou por dizer, displicentemente:
- Não, não. Perguntei só por perguntar.
Intimamente, senti um gozo especial. A partir daquele momento, o senhor Alegria não estava já na posição superior do dissimulado que engana toda a gente. Desde então, continuei a dizer que sim, espreitando-o de soslaio. Consegui confirmar que o cofre se encontrava atrás do quadro e ainda que os cachimbos da parede assinalavam a zona onde o senhor Alegria pressionava com aqueles dedos esquálidos e gananciosos.
Um dia, estando em amena cavaqueira com o meu Botia Modesta, ele sugeriu-me a solução ideal. Modesto, peixe genial! É claro!
Como é que eu não havia pensado nisso? | posted by Mito, Quarta-feira, Julho 26, 2006 | 3 comments |

Capítulo IV
Teresa
Fechados! Quase todos os cafés ainda estão fechados...Quem me manda acordar tão cedo com o receio estúpido de me atrasar? Hei-de querer ser sempre a primeira a pôr o braço no ar para responder na vida. Ainda que, por dentro, já tenha há muito deixado cair os braços. Tão diferentes estas manhãs das outras... – às vezes, acordo com latidos ao longe, a respiração húmida e lisa do mar, o hino dos galos, as vozes fechadas como caixas, breves e graves. Ora Viva Cafe. Lindo.
- Era uma meia de leite, por favor.
- Era? Já não é?
- ...
- O.K., menina, já vou tirar. O troco...
- Obrigada.
Será que os empregados de café não percebem que a bajulice fica sempre à mostra, mesmo quando usam o avental esticado de simpatia? Olha, aqui ao lado, não repararam. Lá está a mesma chalaça e o risinho a pronto do cliente. Onde andará o jornal? Ah, ali. Alguém deixou uma caixinha-cinzeiro na mesa. Tanto melhor, não preciso de me dirigir de novo ao empregado jocoso. Ora deixa ver: Governo não quer autarcas com cargos em empresas municipais O Governo pretende impedir que autarcas acumulem (Não acredito! Duplicação de cargos? No nosso país impoluto?) car....
- Aqui está, menina.
- Obrigada.
Hezbollah disparou vários "rockets" e fez pelo menos dez feridos em Israel O movimento islâmico Hezbollah disparou esta manhã pelo menos... Cresce consumo de medicamentos para sida, cancro e transplantes Os medicamentos .... são aqueles cujo consumo hospitalar mais cresceu nos primeiros cinco meses do ano. Um relatório do Ministério da Saúde revela que a maioria das unidades está a conseguir controlar os gastos. Mas há outras onde a despesa já disparou 15 por cento. (Como é possível que o Governo permita uma despesa destas? E com medicamentos?) Cinema: Toda a Verdade Sobre o Amor... O Sabor da Paixão... Piratas das Caraíbas... O Fio da Vida . Horóscopo... Sagitário:Dedique algum tempo a fazer o ponto de situação da sua vida. Será que está a fazer os possíveis para a viver plenamente? (O Horóscopo devia vir na secção de Humor) Moradia T-5 Carcavelos... 5 nomeações para óscar Walk the Line em DVD... Very Cool Rose... Cruzeiro de luxo no Guadiana relaxe com as àguas calmas (àguas?)... Estúdio Alegria de Tristão Alegria - A Beleza e a Qualidade da Fotografia (Tristão Alegria... Ah! Ah!). Bem, é melhor ir andando, aquele parece mesmo o Antunes, é o Antunes, o galã do Banco, a minha cruz do Banco, que aí vem marcar território com o seu after-shave reluzente. Nos últimos tempos, não me fala, provavelmente qualquer coisa que lhe disse (ou que não lhe disse) que lhe soube mal, as possibilidades são infinitas. Não há pachorra para insinuações, ciumezinhos e amuos. Alguém devia dizer-lhe que os amuos não vão nada bem com o portuguesíssimo bigodinho, nem com o físico hollywoodesco-decadente, moldado a litros de suor no ginásio do bairro. Os amuos são um feudo feminino, como os saltos altos, as lágrimas, os orgasmos simulados, o...
- Olha a Teresa!... Madrugaste...
Tarde de mais...
- Bom dia, Antunes.
| posted by Graça, Domingo, Julho 23, 2006
| 4 comments
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- Era uma meia de leite, por favor.
- Era? Já não é?
- ...
- O.K., menina, já vou tirar. O troco...
- Obrigada.
Será que os empregados de café não percebem que a bajulice fica sempre à mostra, mesmo quando usam o avental esticado de simpatia? Olha, aqui ao lado, não repararam. Lá está a mesma chalaça e o risinho a pronto do cliente. Onde andará o jornal? Ah, ali. Alguém deixou uma caixinha-cinzeiro na mesa. Tanto melhor, não preciso de me dirigir de novo ao empregado jocoso. Ora deixa ver: Governo não quer autarcas com cargos em empresas municipais O Governo pretende impedir que autarcas acumulem (Não acredito! Duplicação de cargos? No nosso país impoluto?) car....
- Aqui está, menina.
- Obrigada.
Hezbollah disparou vários "rockets" e fez pelo menos dez feridos em Israel O movimento islâmico Hezbollah disparou esta manhã pelo menos... Cresce consumo de medicamentos para sida, cancro e transplantes Os medicamentos .... são aqueles cujo consumo hospitalar mais cresceu nos primeiros cinco meses do ano. Um relatório do Ministério da Saúde revela que a maioria das unidades está a conseguir controlar os gastos. Mas há outras onde a despesa já disparou 15 por cento. (Como é possível que o Governo permita uma despesa destas? E com medicamentos?) Cinema: Toda a Verdade Sobre o Amor... O Sabor da Paixão... Piratas das Caraíbas... O Fio da Vida . Horóscopo... Sagitário:Dedique algum tempo a fazer o ponto de situação da sua vida. Será que está a fazer os possíveis para a viver plenamente? (O Horóscopo devia vir na secção de Humor) Moradia T-5 Carcavelos... 5 nomeações para óscar Walk the Line em DVD... Very Cool Rose... Cruzeiro de luxo no Guadiana relaxe com as àguas calmas (àguas?)... Estúdio Alegria de Tristão Alegria - A Beleza e a Qualidade da Fotografia (Tristão Alegria... Ah! Ah!). Bem, é melhor ir andando, aquele parece mesmo o Antunes, é o Antunes, o galã do Banco, a minha cruz do Banco, que aí vem marcar território com o seu after-shave reluzente. Nos últimos tempos, não me fala, provavelmente qualquer coisa que lhe disse (ou que não lhe disse) que lhe soube mal, as possibilidades são infinitas. Não há pachorra para insinuações, ciumezinhos e amuos. Alguém devia dizer-lhe que os amuos não vão nada bem com o portuguesíssimo bigodinho, nem com o físico hollywoodesco-decadente, moldado a litros de suor no ginásio do bairro. Os amuos são um feudo feminino, como os saltos altos, as lágrimas, os orgasmos simulados, o...
- Olha a Teresa!... Madrugaste...
Tarde de mais...
- Bom dia, Antunes.
Capítulo III

Heitor
Escuro. Está muito escuro. É nas trevas que tudo se urde. Na escuridão da noite, germina a semente, reza o aflito e espera o Iniciado.
É na câmara escura que o nitrato de potássio queimado se agarra teimosamente ao acetato, contra a corrente da lavagem, configurando os milhares de pontos que darão definição à imagem nítida e contrastada que se poderá fixar na retina em banho de claridade. Tudo tem uma gestação e a flor brota da terra assim como o sol rasga a noite ao alvorecer.
Não consigo dormir. Embalo as insónias em recordações do tempo em que fiz a descoberta. Faz hoje dez anos que comecei a trabalhar no Estúdio Alegria, propriedade de Tristão Alegria, que ainda é hoje o meu patrão. Trata-se de um estabelecimento com tradição na cidade em que vivo, uma vez que foi fundado pelo avô do senhor Tristão, Cândido Alegria, que aproveitou a fortuna da esposa, Letícia, para montar um negócio de um luxo considerado escandaloso na altura. Durante décadas, o Estúdio Alegria constituiu um ex-libris da cidade e o Senhor Cândido mantinha a sua invejável posição de rico e de artista. Sim, que a sua paixão eram os retoques e os cenários que acompanhavam as fotografias da época. Depois, o seu filho único, Plácido, desbaratou toda a riqueza familiar, como sempre se queixava o Senhor Tristão, deixando-lhe, a ele, a dura tarefa de continuar a tradição e de cuidar da sua querida irmã, Hortênsia, doente mental que vivia internada na Suíça e era um “sorvedouro de cabedais”, ainda nas palavras do amantíssimo irmão. Solteiro inveterado, vivendo para o trabalho, cultivando a sua mesquinhez com afinco, não se lhe conhecem outros afectos. Apenas por uma vez recebeu a visita na loja de uma prima açoriana, de nome Margarida, uma mulher bela e espampanante que encheu o Estúdio Alegria com o seu espírito durante as três horas que lá demorou. Que contraste com o primo! Duas vezes por ano, o patrão lá abalava para as altas paragens suíças, a visitar a mana. Demorava uma ou duas semanas e regressava feliz, com a alma lavada, talvez por sentir o prazer de um dever cumprido. Ai que prazer ter um livro para ler, teclo, distraído. E não o fazer. E não o escrever.
Foi logo com esta resenha histórica que o senhor Tristão me recebeu “à experiência”, por recomendação de um tio meu, que nunca cheguei a conhecer. Sempre lamentando a pouca fortuna, os desvarios do pai e as avultadas despesas, lá me foi dando um salário de miséria e trabalhinho até fartar. Horas extraordinárias era vocabulário desconhecido no dicionário das remunerações do senhor Tristão. Cedo me fui apercebendo de que era a sovinice do patrão que me impedia de ter uma vida mais desafogada. Porém, fui ficando, talvez para grande espanto do próprio. A minha motivação: a minha colecção.
Tudo começou na segunda semana de trabalho. Após ter passado os primeiros dias executando enfadonhas tarefas de rotina, o senhor Tristão achou por bem confiar-me trabalhos mais arrojados: nada mais, nada menos que tirar fotografias “tipo passe” aos clientes da loja. Logo na primeira tentativa, fui brindado com a admoestação seca:
- Oh, senhor Heitor, senhor Heitor, o que foi fazer... Tem de ter mais cuidado; assim só me vai trazer prejuízo. Veja o que faz!
Ao lado dos negativos cortados, as fotos da cliente. Tinham todas ficado de olhos fechados. Bem fechados. | posted by Mito, Quarta-feira, Julho 19, 2006 | 2 comments |

Heitor
Escuro. Está muito escuro. É nas trevas que tudo se urde. Na escuridão da noite, germina a semente, reza o aflito e espera o Iniciado.
É na câmara escura que o nitrato de potássio queimado se agarra teimosamente ao acetato, contra a corrente da lavagem, configurando os milhares de pontos que darão definição à imagem nítida e contrastada que se poderá fixar na retina em banho de claridade. Tudo tem uma gestação e a flor brota da terra assim como o sol rasga a noite ao alvorecer.
Não consigo dormir. Embalo as insónias em recordações do tempo em que fiz a descoberta. Faz hoje dez anos que comecei a trabalhar no Estúdio Alegria, propriedade de Tristão Alegria, que ainda é hoje o meu patrão. Trata-se de um estabelecimento com tradição na cidade em que vivo, uma vez que foi fundado pelo avô do senhor Tristão, Cândido Alegria, que aproveitou a fortuna da esposa, Letícia, para montar um negócio de um luxo considerado escandaloso na altura. Durante décadas, o Estúdio Alegria constituiu um ex-libris da cidade e o Senhor Cândido mantinha a sua invejável posição de rico e de artista. Sim, que a sua paixão eram os retoques e os cenários que acompanhavam as fotografias da época. Depois, o seu filho único, Plácido, desbaratou toda a riqueza familiar, como sempre se queixava o Senhor Tristão, deixando-lhe, a ele, a dura tarefa de continuar a tradição e de cuidar da sua querida irmã, Hortênsia, doente mental que vivia internada na Suíça e era um “sorvedouro de cabedais”, ainda nas palavras do amantíssimo irmão. Solteiro inveterado, vivendo para o trabalho, cultivando a sua mesquinhez com afinco, não se lhe conhecem outros afectos. Apenas por uma vez recebeu a visita na loja de uma prima açoriana, de nome Margarida, uma mulher bela e espampanante que encheu o Estúdio Alegria com o seu espírito durante as três horas que lá demorou. Que contraste com o primo! Duas vezes por ano, o patrão lá abalava para as altas paragens suíças, a visitar a mana. Demorava uma ou duas semanas e regressava feliz, com a alma lavada, talvez por sentir o prazer de um dever cumprido. Ai que prazer ter um livro para ler, teclo, distraído. E não o fazer. E não o escrever.
Foi logo com esta resenha histórica que o senhor Tristão me recebeu “à experiência”, por recomendação de um tio meu, que nunca cheguei a conhecer. Sempre lamentando a pouca fortuna, os desvarios do pai e as avultadas despesas, lá me foi dando um salário de miséria e trabalhinho até fartar. Horas extraordinárias era vocabulário desconhecido no dicionário das remunerações do senhor Tristão. Cedo me fui apercebendo de que era a sovinice do patrão que me impedia de ter uma vida mais desafogada. Porém, fui ficando, talvez para grande espanto do próprio. A minha motivação: a minha colecção.
Tudo começou na segunda semana de trabalho. Após ter passado os primeiros dias executando enfadonhas tarefas de rotina, o senhor Tristão achou por bem confiar-me trabalhos mais arrojados: nada mais, nada menos que tirar fotografias “tipo passe” aos clientes da loja. Logo na primeira tentativa, fui brindado com a admoestação seca:
- Oh, senhor Heitor, senhor Heitor, o que foi fazer... Tem de ter mais cuidado; assim só me vai trazer prejuízo. Veja o que faz!
Ao lado dos negativos cortados, as fotos da cliente. Tinham todas ficado de olhos fechados. Bem fechados. | posted by Mito, Quarta-feira, Julho 19, 2006 | 2 comments |

Capítulo II
Teresa
Fechados. Tenho de verificar se todos os armários estão bem fechados. Apesar de todo o cuidado, alguém poderia... Claro que ninguém poderia. Ninguém imagina, sequer, o que guardo, nem como o que guardo é precioso. Bem sei que é quase um prazer perverso guardar – e guardar-me – dos outros. É o que ela diz. Mas é absolutamente necessário. E até é possível que seja uma forma de dominar e não sei quê. Tolices. Ela não sabe. Só um último olhar: tenho de vê-las todas mais uma vez antes de ir dormir. Só mais uma vez. São tantas... E há tanto de mim em cada uma... Se as perdesse, perdia-me. Quando as olho, posso olhar-me também... Quando as olho, recupero tudo o que já foi. Recupero-me, talvez. Tão estranho, isto. Tão estranha, eu...
- Então, Tomás? Não vens dormir? Ou preferes ficar aí a olhar a noite, a ouvir segredos que só os gatos ouvem? Assim, sim. Vamos, deixa-me fechar as cortinas.
E desligar o PC, já me esquecia. Não existem mensagens novas. Claro. E agora o pior- “desligar-me”. Vou adormecer depressa hoje. Eu sei que sim. É melhor não pensar nisso. É melhor não pensar. Ficar de olhos bem fechados. Bem fechados. Que a realidade não se atreva agora a bater-me à porta do sono, como sempre. Que a vida fique lá fora. Que se esvaia com o grito daquele pássaro vadio - parecia mesmo um cagarro... Será que à noite o passado se esgueira pelos ecos escuros?... Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro. Se te pudesses transformar em canto, como os pássaros, ou cantar por dentro para adormecer... Clarice lay down your mind...Como é o resto? It’s there just hard to find. Há quanto tempo não ouvia isto na memória. Follow me as we wind our way, away. Daqui a uma horas, a lucidez volta a tocar-me no ombro e terei de virar-me, encará-la, sorrir-lhe. Por que será que todos adormecem, menos eu? Até o Tomás já se enroscou nos seus sonhos felinos de grandes caçadas. Em que sonhos me posso enroscar? Behind an open door there lies a million more… Tão estranha, eu. Sei que é verdade. Ela não sabe. O que me diz são meras frases estudadas, a cordialidade que os outros tão bem sabem de cor. Os outros. Os que estão do outro lado do vidro, a viver. Os outros sabem mesmo viver. Deve haver uma forma de se aprender. Deve haver... Se ao menos conseguisse aquela peça, sei que tudo seria diferente. É que não seria só mais uma peça. O pior é que ninguém percebe como é importante. Não se pode viver e perceber, suponho. Tenho de ser eu a fazê-lo... Mas não posso pensar. Não posso. Tenho de dormir.Tenho de dormir agora. Se ao menos se pudesse também apagar a luz por dentro… Se ao menos a noite não fosse uma enorme caixa vazia. Se não ouvisse sempre a ameaça rouca do
mar que não se ouve aqui. Time is coming soon I’ll find you time is coming soon I’ll find you time is coming soon, time is coming soon… Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro.
| posted by Graça, Sábado, Julho 15, 2006
| 2 comments
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- Então, Tomás? Não vens dormir? Ou preferes ficar aí a olhar a noite, a ouvir segredos que só os gatos ouvem? Assim, sim. Vamos, deixa-me fechar as cortinas.
E desligar o PC, já me esquecia. Não existem mensagens novas. Claro. E agora o pior- “desligar-me”. Vou adormecer depressa hoje. Eu sei que sim. É melhor não pensar nisso. É melhor não pensar. Ficar de olhos bem fechados. Bem fechados. Que a realidade não se atreva agora a bater-me à porta do sono, como sempre. Que a vida fique lá fora. Que se esvaia com o grito daquele pássaro vadio - parecia mesmo um cagarro... Será que à noite o passado se esgueira pelos ecos escuros?... Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro. Se te pudesses transformar em canto, como os pássaros, ou cantar por dentro para adormecer... Clarice lay down your mind...Como é o resto? It’s there just hard to find. Há quanto tempo não ouvia isto na memória. Follow me as we wind our way, away. Daqui a uma horas, a lucidez volta a tocar-me no ombro e terei de virar-me, encará-la, sorrir-lhe. Por que será que todos adormecem, menos eu? Até o Tomás já se enroscou nos seus sonhos felinos de grandes caçadas. Em que sonhos me posso enroscar? Behind an open door there lies a million more… Tão estranha, eu. Sei que é verdade. Ela não sabe. O que me diz são meras frases estudadas, a cordialidade que os outros tão bem sabem de cor. Os outros. Os que estão do outro lado do vidro, a viver. Os outros sabem mesmo viver. Deve haver uma forma de se aprender. Deve haver... Se ao menos conseguisse aquela peça, sei que tudo seria diferente. É que não seria só mais uma peça. O pior é que ninguém percebe como é importante. Não se pode viver e perceber, suponho. Tenho de ser eu a fazê-lo... Mas não posso pensar. Não posso. Tenho de dormir.Tenho de dormir agora. Se ao menos se pudesse também apagar a luz por dentro… Se ao menos a noite não fosse uma enorme caixa vazia. Se não ouvisse sempre a ameaça rouca do
mar que não se ouve aqui. Time is coming soon I’ll find you time is coming soon I’ll find you time is coming soon, time is coming soon… Fecha os olhos. Fecha a vida. Em breve o comprimido fará efeito e tudo será nada. E até tu serás um eco escuro.
Capítulo I 
Heitor
De olhos bem fechados. Meticulosamente, miro, remiro os últimos exemplares da minha colecção. São fenomenais e, melhor que isso, são fruto de um engenhoso esforço de obtenção. Observo-os mais uma vez, embevecido com o meu critério. Reparo em cada detalhe, detenho-me em cada “nuance”. Com os olhos bem fechados.
Hoje, alcancei o número cinquenta mil. Quinhentas centenas de exemplares, organizados, datados e catalogados, espalhados pelo apartamento, ocupando uma boa parte do espaço disponível, como se fossem membros de uma família numerosa.
O facto de não os poder expor sempre me galvanizou, ao invés de me retrair. Reconheço que a acumulação é já impressionante, mas chega a ser assustador pensar no que ainda está por fazer, no desafio que coloquei a mim próprio. Como alcançar o milhão no curto espaço de uma vida? Terei de me transcender, de criar alguma estratégia espectacular que me permita acelerar ainda mais o ritmo com que vou coleccionando. E acima de tudo, manter o sigilo.
Não sei onde tudo isto me vai levar. Sei que não penso noutra coisa. Encaro-o como uma missão. Às vezes, gostava de partilhar com alguém este meu hobbie. E os seus segredos. E as portas que abre. E as que fecha.
Conheço cada um dos exemplares da minha colecção. Cuido deles zelosamente.
Eles sabem que podem contar comigo. Podem dormir o seu sono sossegado e eterno. Eu estou a velar.
Amanhã cedo, vou iniciar a execução do meu plano secundário: garantir a minha autonomia financeira. É indispensável que o faça. Como me desola manter este emprego estúpido! Como me rouba o tempo precioso para a consecução dos meus objectivos! Se não teclasse estas mal traçadas linhas – curiosa expressão! – no meu computador pessoal, talvez enlouquecesse. Ou talvez isso já não seja possível. Talvez tenha alcançado um estádio em que a loucura já nada pode contra mim.
Nem contra ti, Modesto, meu pobre peixe que nunca te mostras senão à noite, de relance. Neste momento, que sonhos húmidos ruminas tu, debaixo desse basalto açoriano que me ornamenta o aquário? Terás tu opinião sobre o que faço? Há muito me convenci da tua aquiescência. De outro modo, ter-te-ia já desalojado, como fiz aos teus companheiros. Como me pareciam abelhudos, espreitando pelo vidro! Estupefactos com o que viam. Os olhos redondos de censura!
Modesto, meu amigo, como gostava de te levar comigo amanhã, para veres in loco a aplicação dos teus planos superiormente gizados… Prometo que não vou falhar. Seguirei à risca as tuas recomendações. A minha mão não vacilará. Terás de esperar até que regresse. Contar-te-ei tudo ao pormenor. Terás de te habituar à ideia de me não veres durante bastante tempo. Não te preocupes, arranjarei alguém para te alimentar todos os dias.
Não pretendo fazer mais nada na vida senão cumprir a minha missão e prosseguir a minha colecção. A ninguém revelarei os meus desígnios.
Desligo o computador. Regresso às minhas últimas peças, capturadas hoje. São perfeitas. Fito-as fixamente. De olhos bem fechados. Fechados. | posted by Mito, Quarta-feira, Julho 12, 2006 | 2 comments |

Heitor
De olhos bem fechados. Meticulosamente, miro, remiro os últimos exemplares da minha colecção. São fenomenais e, melhor que isso, são fruto de um engenhoso esforço de obtenção. Observo-os mais uma vez, embevecido com o meu critério. Reparo em cada detalhe, detenho-me em cada “nuance”. Com os olhos bem fechados.
Hoje, alcancei o número cinquenta mil. Quinhentas centenas de exemplares, organizados, datados e catalogados, espalhados pelo apartamento, ocupando uma boa parte do espaço disponível, como se fossem membros de uma família numerosa.
O facto de não os poder expor sempre me galvanizou, ao invés de me retrair. Reconheço que a acumulação é já impressionante, mas chega a ser assustador pensar no que ainda está por fazer, no desafio que coloquei a mim próprio. Como alcançar o milhão no curto espaço de uma vida? Terei de me transcender, de criar alguma estratégia espectacular que me permita acelerar ainda mais o ritmo com que vou coleccionando. E acima de tudo, manter o sigilo.
Não sei onde tudo isto me vai levar. Sei que não penso noutra coisa. Encaro-o como uma missão. Às vezes, gostava de partilhar com alguém este meu hobbie. E os seus segredos. E as portas que abre. E as que fecha.
Conheço cada um dos exemplares da minha colecção. Cuido deles zelosamente.
Eles sabem que podem contar comigo. Podem dormir o seu sono sossegado e eterno. Eu estou a velar.
Amanhã cedo, vou iniciar a execução do meu plano secundário: garantir a minha autonomia financeira. É indispensável que o faça. Como me desola manter este emprego estúpido! Como me rouba o tempo precioso para a consecução dos meus objectivos! Se não teclasse estas mal traçadas linhas – curiosa expressão! – no meu computador pessoal, talvez enlouquecesse. Ou talvez isso já não seja possível. Talvez tenha alcançado um estádio em que a loucura já nada pode contra mim.
Nem contra ti, Modesto, meu pobre peixe que nunca te mostras senão à noite, de relance. Neste momento, que sonhos húmidos ruminas tu, debaixo desse basalto açoriano que me ornamenta o aquário? Terás tu opinião sobre o que faço? Há muito me convenci da tua aquiescência. De outro modo, ter-te-ia já desalojado, como fiz aos teus companheiros. Como me pareciam abelhudos, espreitando pelo vidro! Estupefactos com o que viam. Os olhos redondos de censura!
Modesto, meu amigo, como gostava de te levar comigo amanhã, para veres in loco a aplicação dos teus planos superiormente gizados… Prometo que não vou falhar. Seguirei à risca as tuas recomendações. A minha mão não vacilará. Terás de esperar até que regresse. Contar-te-ei tudo ao pormenor. Terás de te habituar à ideia de me não veres durante bastante tempo. Não te preocupes, arranjarei alguém para te alimentar todos os dias.
Não pretendo fazer mais nada na vida senão cumprir a minha missão e prosseguir a minha colecção. A ninguém revelarei os meus desígnios.
Desligo o computador. Regresso às minhas últimas peças, capturadas hoje. São perfeitas. Fito-as fixamente. De olhos bem fechados. Fechados. | posted by Mito, Quarta-feira, Julho 12, 2006 | 2 comments |