
Capítulo XII
Teresa
Ver é rever. Quase sempre. É o passado que pintamos no contorno do presente (como fazes nos livro de colorir, Zé Pedro). À sexta-feira, deixo de ser eu-agora, sou eu-antes, ou eu-agora-antes em sobreposição. Num arame perigoso. E nunca sei quem te fala. Mas sei que és tu inteiro que vejo sempre, António. Tu que me entregaste o Zé Pedro - esta é, finalmente, a semana de ele ser meu filho.
- O Zé anda a fazer perguntas sobre a avó. Há uma fotografia da minha mãe nos caixotes que ainda estão no armário, no vão da escada.
- Explicaste-lhe...
- Sim, disse que a avó Noémia vive nos Açores e que a avó Amélia vive muito mais longe, que não podemos visitá-la, nem ela a nós.
Ver é rever. E lá estavas, Amélia, no teu rosto de vinte e poucos anos, à espera de tudo. À espera que a vida te acontecesse, à espera que a vida te emoldurasse em felicidade. Serás tu, por certo, o António Luís nunca me mostrou esta foto, mas a semelhança é óbvia, os mesmos olhos de quem vê fundo. O mesmo sorriso virado para amanhã.
- Esta é a avó. A avó Amélia.
- Éli!
- A-mé-li-a...
-Li-a! Dá!
- Espera..., não... a moldura, Zé!
E morreste de novo, avó em perene juventude, em estilhaços de impaciência infantil. Mas nascias subitamente aos meus olhos, nas linhas desbotadas que o amor escrevera cuidadosamente, e que o amor guardara para sempre contigo, ocultas no interior da tua moldura frágil.
Já passa das oito, o Antunes já deveria cá estar. Ele que é tão meticuloso, que confere constantemente os relógios, como se a vida assim fosse mais certa, como se assim chegasse a tempo ao seu encontro. O que vale é que o restaurante é simpático, com pouca luz, mas a suficiente para reler-te, Amélia. Ou quem quer que sejas, que falas de tão longe, tão aqui.
Lucerna, 10 de Dezembro de 1970
Meu querido Luís:
Sei que nunca mais nos veremos, que viveremos longe um do outro só com a recordação por companhia. Se isso for viver. Mas terei coragem, pois nada foi em vão. Sabia que a felicidade desmedida teria um preço. Pago-o sem me queixar. Confiarei à M. o que temos de mais valor. Ela procurar-te-á. Entenderás tudo. Perdoa-me. Sei que zelarás pelo nosso amor, que crescerá sempre contigo, longe de todos os perigos. Será prudente casares. É-me doloroso dizê-lo, querido Luís, mas perceberás que é melhor para todos nós se fores feliz e fizeres feliz quem te cerca.
Sempre tua,
P.A.
Uma carta de romance de cordel. O amor tem sempre as mesmas cores, seja em que tempo for. Cor de renúncia. Cor de alegria. Cor de sofrimento. Quem és, P.A.? Amélia não era o teu primeiro nome? Será uma alcunha, um código? Que digo ao António Luís? Ou não digo nada? Que faço? Que diabo!, talvez seja uma carta escrita no tempo de namoro, um arrufo, talvez. São tão tristes as cartas de amor-amor. Embaciam tudo por contraste. Sempre tua. Somos tão pouco uns dos outros. Apressamo-nos a voltar para dentro de nós próprios, para as nossas vidinhas, para as nossas palavras, as únicas que verdadeiramente ouvimos. Sempre tão longe, as pessoas.
- Posso?
| posted by Graça, Domingo, Outubro 08, 2006
Teresa
Ver é rever. Quase sempre. É o passado que pintamos no contorno do presente (como fazes nos livro de colorir, Zé Pedro). À sexta-feira, deixo de ser eu-agora, sou eu-antes, ou eu-agora-antes em sobreposição. Num arame perigoso. E nunca sei quem te fala. Mas sei que és tu inteiro que vejo sempre, António. Tu que me entregaste o Zé Pedro - esta é, finalmente, a semana de ele ser meu filho.
- O Zé anda a fazer perguntas sobre a avó. Há uma fotografia da minha mãe nos caixotes que ainda estão no armário, no vão da escada.
- Explicaste-lhe...
- Sim, disse que a avó Noémia vive nos Açores e que a avó Amélia vive muito mais longe, que não podemos visitá-la, nem ela a nós.
Ver é rever. E lá estavas, Amélia, no teu rosto de vinte e poucos anos, à espera de tudo. À espera que a vida te acontecesse, à espera que a vida te emoldurasse em felicidade. Serás tu, por certo, o António Luís nunca me mostrou esta foto, mas a semelhança é óbvia, os mesmos olhos de quem vê fundo. O mesmo sorriso virado para amanhã.
- Esta é a avó. A avó Amélia.
- Éli!
- A-mé-li-a...
-Li-a! Dá!
- Espera..., não... a moldura, Zé!
E morreste de novo, avó em perene juventude, em estilhaços de impaciência infantil. Mas nascias subitamente aos meus olhos, nas linhas desbotadas que o amor escrevera cuidadosamente, e que o amor guardara para sempre contigo, ocultas no interior da tua moldura frágil.
Já passa das oito, o Antunes já deveria cá estar. Ele que é tão meticuloso, que confere constantemente os relógios, como se a vida assim fosse mais certa, como se assim chegasse a tempo ao seu encontro. O que vale é que o restaurante é simpático, com pouca luz, mas a suficiente para reler-te, Amélia. Ou quem quer que sejas, que falas de tão longe, tão aqui.
Lucerna, 10 de Dezembro de 1970
Meu querido Luís:
Sei que nunca mais nos veremos, que viveremos longe um do outro só com a recordação por companhia. Se isso for viver. Mas terei coragem, pois nada foi em vão. Sabia que a felicidade desmedida teria um preço. Pago-o sem me queixar. Confiarei à M. o que temos de mais valor. Ela procurar-te-á. Entenderás tudo. Perdoa-me. Sei que zelarás pelo nosso amor, que crescerá sempre contigo, longe de todos os perigos. Será prudente casares. É-me doloroso dizê-lo, querido Luís, mas perceberás que é melhor para todos nós se fores feliz e fizeres feliz quem te cerca.
Sempre tua,
P.A.
Uma carta de romance de cordel. O amor tem sempre as mesmas cores, seja em que tempo for. Cor de renúncia. Cor de alegria. Cor de sofrimento. Quem és, P.A.? Amélia não era o teu primeiro nome? Será uma alcunha, um código? Que digo ao António Luís? Ou não digo nada? Que faço? Que diabo!, talvez seja uma carta escrita no tempo de namoro, um arrufo, talvez. São tão tristes as cartas de amor-amor. Embaciam tudo por contraste. Sempre tua. Somos tão pouco uns dos outros. Apressamo-nos a voltar para dentro de nós próprios, para as nossas vidinhas, para as nossas palavras, as únicas que verdadeiramente ouvimos. Sempre tão longe, as pessoas.
- Posso?
5 Comments:
Um beijo
Obrigada, Nuno, por, de algum modo, ficares.
http://www.juntosnorivoli.com/
Um abraço.
Add a comment