A Duas Mãos





Capítulo X

Teresa

- Mais perdida, talvez. Menos em mim do que antes. Nunca se guarda nada. Nem o amor, nem os espaços, nem os amigos. Nem as recordações. Quando o Zé Pedro está com o pai, às vezes, não me consigo lembrar exactamente dos olhos, do riso, da voz entaramelada de sono, à noite, e manchada de sonhos, de manhã. Às vezes, entro em pânico, tenho medo de enlouquecer, de esquecer tudo, todos os marcos do caminho até mim.

E agora, Rosário, que me responderás? Que palavras sensatas terás para me tranquilizar, para me “normalizar”? Que comprimidos me devolverão a mim, que substâncias me ensinarão a ser? Porque é isto que procuro, uma droga qualquer que me ajude a dormir, e outra que me ajude a acordar, a existir mesmo sem querer. Não são as tuas palavras que me trazem cá. Não sabes nada de nada. Tens boas intenções, eu sei. Tudo o que me dizes neste momento e que disfarçadamente ignoro, serão certamente frases edificantes, recortadas com a tua habitual paciência de várias fontes fidedignas. O que, supostamente, será certo ser, dizer ou fazer. Sabes que detesto a palavra. E os seus defensores. Um dia, Rosário, um dia, canto no tom certo, uso as palavras certas, a roupa certa. Um dia tomo a atitude certa, a vida certa. Um dia, Rosário.

- ... em relação ao António Luís?
- Às vezes, achamos que as pessoas são um número, e, afinal, são outro.
- Um número...

Por favor, não tomes nota, que irritante ser observada, dissecada. Não sabes, nunca saberás quem eu sou. Só terás o retrato que as minhas palavras fizerem, o retrato que eu quiser. É sempre assim. O que vês e ouves não é o que sou.

- Um número, sim. O António e eu fomos uma soma errada. Às vezes, desejava apagar tudo e somar-nos de novo.
- E por que houve, na sua opinião, esse erro de cálculo?
- Porque não percebi, porque não voltei atrás, porque ...

E porque não deixei de ser eu, porque me trouxe comigo e... É como num poema que li há pouco tempo: “Começo a habituar-me. A viver a teu lado. Não é que se desfaça a bruma; há poços cheios de inverno, calafetados.” Trouxe a névoa comigo. Nunca me consegui desfazer do Inverno.

- Mas sabe que a soma se faz com, pelo menos, dois números...
- Claro. Mas devia ter visto os indícios. Devia ter escolhido melhor todas as palavras.

Já sei, estás a pensar no problema da culpa, vais dizer-me que não tenho de assumir a responsabilidade de tudo, que tenho de me perdoar, de aceitar tranquilamente os erros e as perdas.

-... os erros e as perdas. ... ... caixas esta semana?
- Só duas, ontem. Insignificantes.
- Muito bem. Vemo-nos, então, na próxima semana. Tem aqui a receita.
- Claro. Obrigada. Boa tarde.
- Boa tarde.

E pronto. Um dia hei-de achar que fiz bem. Que me encontrei neste consultório. Cara a cara comigo própria. Que estranho, uma mensagem do Antunes no telemóvel... porque não falou comigo no BCA? Aliás, no BANIF, nem eu nem ele nos habituámos à mudança. Jantar? Pois seja, a ver se volto à superfície das coisas simples, se me deixo esquecida no fundo de mim. Seja, Antunes. Às oito.

| posted by Graça, Terça-feira, Setembro 05, 2006

5 Comments:

obrigado pela visita aos quartos escuros. vou precisar de mais tempo para ler o que escreves a duas mãos, mas parece-me que vou gostar ;)
Olá Graça. Venho agradecer-lhe a visista que fez ao meu espaço "cem truques" e ao gentílissimo e perspicaz comentário que me deixou. Observo, entretanto, que por aqui se anda há meno tempo (desde julho), porém com muitas palavras para contar... contar, não sei se histórias, estórias, ou pelos dedos da mão. Não importa. Gostei de ler este pedaço. Virei mais vezes, certamente. Aguardo-a com um chá de jasmim, por lá, no lugar que já conhece. Até breve. Um abraço Azul.
Blogger Azul, at 5:56 PM  
Obrigada, Perdido no Escuro, por encontrares este caminho. De facto, os posts são extensos, o que nem sempre convida à leitura neste meio. Por mim, leva o tempo que quiseres. Espero que gostes tanto como gostei do quarto onde escreves.

Confesso, Azul, que mais do que ser lida me agrada sim,imensamente, ler, e é um privilégio descobrir espaços onde as pessoas estão tanto e se dizem tão bem. E aceito o chá, é claro. E retribuo o abraço - a duas mãos...
Blogger Graça, at 6:16 PM  
Não conhecia este sítio. Que surpresa agradável encontrar um texto bem escrito. Percebi que há muito mais para conhecer.

Cumps
Graça, embora recém-chegada, chego a tempo de acompanhar esta escrita a duas mãos. Segui a cronologia dos capítulos e já não me sinto estranha. Como diz a Llansol, para mim isto é "o encontro inesperado do diverso". Voltarei. Um beijo.
www.estradasecundaria.blogs.sapo.pt
Blogger M, at 3:59 PM  

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