A Duas Mãos




Capítulo VIII

Teresa

Olhos longe, regresso a casa. Ainda que sinta que a minha verdadeira casa fica numa ilha. Como todas as casas, aliás. Como todos os locais onde nos moramos. Continuo a gostar dos comboios, embora me pareçam agora bem menos poéticos do que antes (tinhas razão, António). Nada é o que se imagina. Devia sabê-lo. Devíamos sabê-lo. Às vezes, sinto que me roubaram a uma vida paralela que, entretanto, ficou suspensa, que, entretanto, espera por mim, anseia que vire à esquerda ou à direita, que esboce o gesto perfeito, que encontre a combinação certa, que diga a fórmula mágica, sem nós nas sílabas. E eu sempre gestos de pedra, sempre uma nota falsa no encanto que deveria levar-me até mim. Houve um tempo em que achei que o teu nome abriria todas as portas, me daria todos os tesouros. Mas até as palavras mágicas se gastam, suponho. Como as outras. Como as que me dizias. Como as que sei que nunca irei ouvir - e é dessas que tenho mais saudades. Talvez o amor seja feito de palavras também. E destruído por elas. Aliás, foste tu que me mostraste - pacientemente - que não nos amávamos (e que me convenceras antes do contrário também). De forma que ocultei o que sentia sob palavras de circunstância, de compreensão, de comedimento, de indiferença... Quando dei por mim, só havia a terra alisada pelos “claro”, “com certeza”, “está bem”, “não tem importância” que atirei às pazadas sobre nós, parando para sorrir, de quando em quando. Agora, mesmo que me apeteça resgatar-nos, já não sei onde estamos, em que enseada escondi tudo o que sentia. Não sei de nós, nem de mim.
O telemóvel... não, enganei-me, deve ser o desse homem à minha frente, que lê, olhos a flutuar nas páginas, uma revista de ... fotografia, parece-me, os dedos ocultam o título. Mãos de boa pessoa. A Rosário havia de se rir de novo. Eu sei, Rosário, a personalidade não está nas mãos. Estará onde, não me dizes? Um bocadinho desajeitado, ia deixando cair o telemóvel.
- Desculpe...
- Deixe estar.
Nervoso, ou talvez “fora de si”, como quem estranha e se atrapalha ao voltar à tona da realidade. É fácil perder o ar quando se vem à superfície de quem se é. Ou de quem se pretende ser. Olhos longe, também. Como te chamarás? Haverá uma inicial nesse fio de ouro que alguém te ofereceu? Talvez um L... um H? Claro, ajeita a camisa, não deixes nunca que vejam quem és, Luís, Leonardo, Helder, Henrique...
Olhos longe, regresso a casa. Ou melhor, olhos em mim, sigo-me devagar. Os gestos soletrados de cor, os passos contados, os últimos tempos da valsa triste de todos os dias. Um, dois, três, rodar a chave, empurrar a porta, um, dois, três, rodar o corpo, fechar a porta, um, dois, três, entrar, pousar as chaves, um, dois, três, pousar a mala, pousar-me no sofá, um, dois, três, levantar-me, abrir a mala, abrir o armário, guardar as caixas, um, dois, três, entrar no quarto, tirar a roupa, um, dois, três, peça a peça, passo a passo, um, dois, três, encher a banheira, deitar-me, um, dois, três, ficar aqui até ao fim da valsa.
| posted by Graça, Domingo, Agosto 13, 2006

4 Comments:

Este capítulo despertou-me de pensamentos, sentimentos e palavras (no fundo, restarão, de todas as coisas um dia construídas, as palavras!?!). Saboreei-o do início ao fim e nele encontrei o amor, a consciência, a eterna divagação dos momentos, uma inconstante resignação, a observação de um eu transposto nos outros. Uma companheira rotina de afectos ao som de música. Prendeu-me. Gostei.
Blogger Fatma, at 10:55 AM  
E eu gostei deste comentário, Fatma, naturalmente. É impossível não se gostar de saber o que fica do que escrevemos nos outros. E agrada-me, neste caso, verificar que ficou tanto...
Blogger Graça, at 8:08 PM  
Valsa... Dançar não sei, mas a "vossa" história é tão melodiosa que começo a não encontrar palavras para os meus comentários! Mais uma vez, PARABÉNS.
Não és o único a não encontar palavras... Há muita gente que padece deste mal. Ou que encontra as palavras erradas.

Obrigada pela visita e pelo comentário.

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