A Duas Mãos





Capítulo VI

Teresa

- ... nisso, tem razão, a sua conta...
- ... e depois o depósito será...
- ... em dois dias a transferência...
- ... a certeza de que o juro...
É sempre insuportável o zumbido do Banco todas as manhãs. As frases às tiras como os papéis que se eliminam. Deste lado do vidro, Teresa Botelho, ou melhor, Teresa Almeida. No crachá, ainda sou Almeida. Soava bem melhor, tal como a vida também. Agora, soam mal. Como a pronúncia alisada do Antunes, a fingir que é alfacinha. Com palavras cheias de sílabas que martela vagarosamente – não se percebe por que continua a ouvir frequentemente tantos “Como?” do outro lado do vidro. Há pouco, desfazia-se em vénias verbais (e físicas!) ao telefone. Devia ser cliente graúdo. O Antunes gosta de “pessoas importantes”. Quando pedi que me transferissem para cá, nem esperava encontrar conterrâneos no BCA. Esperava ficar mais perto do António Luís, que se começava a queixar da comida nos aviões, do tempero dos restaurantes e cafés da ilha, dos jornais, livros, CDs e amigos que não encontrava em S. Miguel, da humidade – e até do sabor das queijadas de Vila Franca. Resolvi inverter os papéis, antes que fosse impossível alguém regressar a alguém. E porque sempre reclamara que queria uma vida só minha. E vim ser Teresa Almeida.
- Tem o seu BI?
- Só um minuto... Está aqui.
- Sabe que já caducou... Mas tem sorte, que o meu também já e eu sei como é que são essas coisas, mas veja lá se resolve isso, senhora... Margarida Alegria Brum.
- Muito obrigada, querida, era para tratar disso antes de vir para cá, mas o Paulinho mandou dizer que ia queimar as fitas esta semana...
- Não se preocupe. Pode assinar aqui, se fizer o favor.
- Gosto poderes daquele pequeno.
- É tudo. Tenha um bom dia e que tudo lhe corra bem por cá.
- Adeus, querida. Até outra vez. Olha-me ele! Aníbal! Aníbal! Não te tinha visto. Então até logo, não te esqueças!
- Sô D. Margarida! Claro que não, claro que não! Estou inquieto que chegue a hora! Até logo!
Olha, olha, parece que o Aníbal a conhece. Fica mesmo cómico o Antunes, aos acenos e risinhos. No fundo, nem é má pessoa. Se bem que nunca se apreende o fundo de ninguém. Mesmo que se partilhe a vida (que, como descobri, nunca é só nossa). Não vale a pena atravessarmos o mar. Ou o amor. Nunca se chega à ilha onde o outro está. Talvez o que valha a pena seja só a viagem. Ou o sabor que se guarda, depois. Até pode ser o das queijadas da Vila. Ou o do riso claro do José Pedro, tão cedo habituado a ter ora um pai, ora uma mãe. Ela havia de gostar desta visão madura, sem idealismos (como diria) das coisas. Desta aceitação tranquila das perdas.
- ... nisso, tem razão, a sua transferência...
- ... e depois o saldo será...
- ... é claro que o depósito...
E não há forma de o zumbido amortecer. Devíamos dispor de um botão silenciador, que fizesse o barulho pousar devagar no solo espelhado do Banco. A “Sô D. Margarida” deixou aqui uma caixa de fósforos. Depois, dou-a ao Antunes, que me parece lidar agora com uma “pessoa importante”.
| posted by Graça, Terça-feira, Agosto 01, 2006

5 Comments:

É realmente muito interessante a vossa escrita a duas mãos. Já fiquei fã.

Bjos.
Blogger maria, at 11:59 PM  
Graça, num outro texto seu:

"Hei-de querer ser sempre a primeira a pôr o braço no ar para responder na vida."

Gosto de a ler.
Obrigada, Maria, por mais estas palavras sem espinhos.

Obrigada, Sandra,o gosto é mútuo, quer a voz seja mais ou menos disfarçada, mais ou menos dentro de quem escreve. E de quem lê.
Blogger Graça, at 3:25 PM  
Olha, olha, ainda não tinhamos linkado este. Vou já tratar disso ;)
Ainda bem! seria uma lacuna grave no Prazeres Minúsculos... ;)
Blogger Graça, at 8:59 PM  

Add a comment